Viver com fé

23 abr

“O Deus que há em mim saúda o Deus que há em você”

Espaço colorido, cheirando a incenso. Tem algo místico no ar.

E na correria de mais um plantão, tive a grata surpresa de saber que o final de semana em que eu estaria na Unidade do SESC Santo André, aconteceria o Encontro de Yoga. Fiquei feliz e triste ao mesmo tempo. Paticipar indiretamente, mas sem me concentrar pessoalmente na atividade.
Como de costume, eu desenvolveria uma oficina com o público. Queria que fosse algo especial, pessoal, colorido… Iluminado!

E foi asism que resgatei de minhas memórias o dia em que estive na exposição de Yoko Ono. Ela preparou uma árvore dos desejos que teve meu pedido pendurado em seus galhos, carregando de esperança aquele verde de natureza. Seria esta a minha atividade.

No dia 22 de abril de 2012, precisamente 13h30, muitas pessoas tomaram assento naquela bancada branca, pigmentada de papéis neon. O verde, o amarelo, o roxo, o rosa, o laranja, todos tomados de desejos e de fé. Pessoas ansiosas e com sede de vida, de milagre.

E foi uma senhora de 66 anos que roubou a minha atenção. Ela escolheu seu papel, e chorando, escrevia com força aquilo que buscava. E me contou a seguinte história:

“Há 35 anos eu espero por este milagre. E hoje, eu vou colocar meu papelzinho para que a sua árvore me traga ele”.

Meu olhos se encheram d´água. Eu não tinha a dimensão do que aquela simples oficina, inspirada na ideia da brilhante Yoko, poderia fazer com as pessoas. E cada vez mais, aquela discreta árvore ganhava cores, sonhos e esperança.

Cachorro, irmãozinhos, pedido para que o filho parasse de beber, cura de doenças, carros novos, paz mundial. Ali, o peso da responsabilidade me tomava. O que antes teria termino apenas com a retirada de cada pedido, agora merecia uma benção. E foi então que o caminho que ela tomou jamais tinha passado pela minha cabeça. Euber, nosso estagiário, e eu levamos todos aqueles sonhos até o espaço de meditação, de dança e de paz. E saudando os deuses e o universo, cada pedido foi sacramentado pela oração de uma monja, pela energia da vida.

Eu esqueci de pendurar uma prece ali. Mas acredito que eu tenha feito isso quando uni minhas mãos, fechei meus olhos e deixei com que toda aquela paz invadisse a minha vida, ultrapassasse meu cansaço, acalentasse meu coração ali conturbado e me trouxesse a luz que a gente só encontra dentro da gente mesmo.

O dia em que eu rezei para São José

9 abr

“Oh! São José, cuja proteção é tão grande, tão forte, tão imediata diante do trono de Deus, coloco em vossas mãos todos os meus interesses e desejos.”

Não. Não foi esta a minha oração ao santo. O dia em que eu rezei para São José foi exatamente isso:

- São José, se você existe, perdoa este garoto!

Não sou católica apostólica romana. Não sou do Kardec e nem acredito em orixás. Eu só acedito em Deus mesmo, sem levantar bandeiras, sem ostentar a estrela de Davi que deu cria à minha família. Mas neste dia, eu pequei, confesso.

Tudo começou com inofensivas uvas, uma de minhas frutas favoritas. E elas estavam lá, suculentas, doces, tão romanas quanto a idéia que fazemos de Baco descansando em um dia de sol. Mas foi num descuido em que uma questão se fez presente:

- Nathalia! Eu posso tomar este suco de uva?

Era Vítor, um de meus Curumins serelepes e fofos do SESC, preocupado com o suco oferecido no lanche.

- E por quê não?

- E que eu fiz aquela promessa do dia de São José, sabe? Então, por um ano, eu não posso comer nada de uva.

- Olha, São José não vai se importar com um suquinho de uva. Vai, pode tomar.

E foi aí que eu pequei. Pequei e fiquei com aquele peso que só os pecadores genuínos têm. Mas o arrependimento se fez presente. É claro, não foi de imediato. Eu passei uma noite toda me culpando por ter me metido numa promessa que nem minha era e ter sido uma mulher de pouca fé. Sabe como é – assim que eu tentava me abster- aquelas crianças não têm muita coisa pra comer, vivem cheias de privações da vida, cheias de NÃO o tempo todo. Não, isso não tem nada a ver, Nathalia! – o anjinho me soprava no ouvido – A promessa não era sua, o desejo de alcançar a graça não era seu e como você pode agora dizer “Eu respeito todas as religiões”, hein? Pois é. Pedi um auxílio divino e no dia seguinte, chamei Vítor para conversar:

- Vítor, eu queria te falar uma coisa.

Ele, desolado com seu pecado que me teve como cúmplice e cabeça do caso.

- Eu sei, você vai falar da promessa. Deixa pra lá, ela não vai mais dar certo. Eu tomei o suco…

- Não, Vítor! A culpa foi toda minha, acredite. Mas olha, eu conheço São José, sabe? E ele é um Santo muito legal. Tenho certeza de que se a gente pedir desculpas de todo o nosso coração, ele vai nos perdoar e melhor ainda, acreditar que você vai seguir em frente com aquilo que deseja. Vamos tentar?

E foi então que ele e eu ficamos próximos ao teatro do SESC Santo André, sentadinhos, unindo nossas mãos em prece e entoando o cântico do perdão:

- Querido São José, sabemos que o Vítor tomou o suco de uva por culpa minha, mas agora viemos aqui pedir desculpas. Sabemos que o senhor é legal e vai nos dar esta segunda chance. Não haverá uvas durante um ano para que a promessa, seja lá qual ela for, seja alcançada. Obrigada e amém!

Vítor, mega feliz, foi recomeçar sua vida, enquanto eu buscava um sentido para tudo isso:

- São José, se você realmente existe, perdoe este garoto. A culpa foi minha! Dê a ele uma segunda chance para cumprir esta promessa.

E foi então que eu realmente soube que a minha fé não é melhor do que a de ninguém, muito menos do que a de uma criança. Se eu deixaria meu filho se privar de algo que gosta por um ano? Não, mas confesso que depois disso, fiz uma promessinha para Deus. Agora, como provação ou não, quase sempre tem alguma coisa de uva no lanche, mas eu olho para ele, ele para mim e juntos combatemos a vontade e mantemos nossa palavra.

Viver com fé e de fé. É algo sublime.

Seda

2 mar

Da plateia, um palco lotado de vida e cadeiras. Objeto grosseiro se comparado a uma dança. Mas quem se importa? A leveza, fruto que transcende corpos, é capaz de transformar. As luzes coloridas se apagam e uma atmosfera amena, eu diria até que de suspense, se instaura naquele lugar que será berço da delicadeza.

No centro, ainda tímida, uma aspirante à bailarina aparece. Ela e sua cadeira, o espetáculo e seu mundo. E com jeito suave, seus braços vão acariciando o ESTAR, as pernas ensaiam os primeiros passos de SER. Ali, ela não é a garota da favela. Andrea se tornou do corpo de baile da transformação.

Naquele momento em que a vi tão entregue, meus olhos brilharam e eu fiz uma oração. Desejei que qualquer anjo da arte, daqueles que inspiram os gênios e especiais, recolhesse cada movimento daqueles e os espalhasse para o mundo como poção de mudança. Era um pedido de mãe emprestada, de educadora que sabe o poder destes passos e de cada um daqueles aplausos.

Andrea foi uma de minhas crianças do Curumim entre os anos de 2007 e 2008. Seu sonho? Ser bailarina. No dia contado, ela se apresentou no teatro do SESC SAnto André, em um espetáculo final das atividades de Expressão Corporal. Cresceu como muitas daquelas crianças, em meio às rusticas madeiras que formavam casas, à terra batida que desmoronava com cada pranto de natureza. E foi numa destas chuvas que impedem o nosso caminhar que eu a encontrei.

Mulher feita. Mal a reconheci se não fossem aqueles olhos amendoados e vivos, cheios de esperança. A menina que hoje já ultrapassa a minha tímida altura não foi descoberta por nenhum grande corpo de baile internacional e nem se apresenta na Rússia. Ela hoje dança com números e sua coreografia tem passos bem marcados. Escola, estágio, curso final. A garota da Tamarutaca é quase uma técnica em Engenharia Mecatrônica, rumo à Universidade e à conquista de seu sonho.

E nesta luta diária de SER e TER, a vida tem um programa todo especial quando nos convida para dançar. Com o tempo, acumulamos quedas, aplausos, seda em meio à toda uma construção que vive à margem.

A seda é cria daquilo que brota de dentro, é razão de um trabalho persistente e delicado. A seda é ouro, pois traz dentro de si a paciência e a determinação. Seda delicada que transforma qualquer lugar, que abraça uma dança, que veste um corpo nu dando-lhe forma. A seda em meio aos escombros é delicadeza.

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O carro da fruta

23 jan

“O carro da fruta chegou, o carro da fruta chegou!”

E por entre o chão de barro marcado por aqueles meninos de Mauá, um novo sorriso brota. É a alegria de provar o suco, de beber da natureza, de comer com gosto.

Aquele veículo misterioso não é puxado por renas e nem risca o céu na sua trajetória. Ele tem quatro rodas e uma carroceria repleta de solidariedade. De dentro dele, dois homens comandam a festa de Natal fora de época.

E o bastimo de vida dá lugar à magia. Natal e Garcia são os dois trabalhadores do caminhão do MESA Brasil do SESC. No lugar do Polo Norte, eles recebem os pedidos na unidade de Santo André. Ao invés de cartas, telefonemas e emails. E o presente vem em forma de doações de alimentos.

O projeto, que já passou de uma década, nasceu com a missão de combater a fome e o desperdício de alimentos. Aquilo que está maduro demais para a venda ou que sobrou e se encontra em boas condições é analisado por ambos e recolhidos para virar prato na mesa de quem precisa.

É fruta quase virando doce, é o retalho do bolo da confeiteira. E tudo isso se transforma em sobremesa para pequenos corpos que anseiam a nutrição também da alma, um delicioso pavê feito pela tia da creche.

Todos os dias, aquele caminhãozinho faz a festa de quem tem fome. Quando adentra uma comunidade, um orfanato ou asilo, é quase que possível saber que milagres existem.

E no rosto do homem batizado como Natal, a emoção de saber que aquilo que ele faz transforma. Nada é mais gratificante do que ver aquela garotada correndo, seguindo as marcas do seu pneu e vendo aquelas portas, literalmente da esperança, se abrirem.

Por entre cascas e sementes de abóbora, ainda com seu uiniforme de cor verde esperançosa, ele se emociona: “É um dos melhores trabalhos do mundo.”

A tarde cai, o caminhão volta para a garagem. Na manhã seguinte é dia de colocar o boné verde, as botas e luvas. É momento de estudar rotas, ler emails. É tempo de entregar esperança.

Reza a lenda que um homem velho, vestido de vermelho e com uma sacola repleta de presente jamais abandona sua missão. Pode ser que ele só apareça em Dezembro, mas há aqueles que conseguem vê-lo durante o ano todo, afinal, “não há nada melhor no mundo do que entregar sonhos.”.

Contato Imediato

9 jan

“Peço por favor
Se alguém de longe me escutar
Que venha aqui pra me buscar
Me leve para passear

No seu disco voador
Como um enorme carrossel
Atravessando o azul do céu
Até pousar no meu quintal”

Pois é. Alguns pedidos são atendidos não por extraterrestres e fadas madrinhas. Quem os atendem são simples mortais que um dia ousaram enxergar para além de ver.

Quase Quarentas anos. Terno preto, óculos escuros, rádio de verdade no lugar daquele que um dia foi um comunicador de brinquedo. Assim caminha Alexandre pelos trajetos diversos do SESC Santo André.

Ali é o seu local de trabalho. No peito, escrita em letra cursiva, é possível ler “Segurança do SESC”. Desta forma, ele foi condecorado por alguma rainha inglesa, como se esta tivesse pedido para que ajoelhasse e, com uma espada real tocando seus ombros, o título de SIR lhe foi dado.

Ele cuida daquele espaço com carinho. Presta atenção a cada regra transgredida, a cada criança que insiste em quebrar combinados.

Alexandre é um funcionário exemplar. Chega no horário, parte com pontualidade, olhos de lince. Olhos meigos que fixam nos seus e são capazes de desejar o “Tenha um MARAVILHOOOOOOOSO 2012″ mais especial deste planeta. Dedicado, delicado. Com um sorriso de canto de boca, recebe a todos. Com seu rádio comunicador, tagarela inúmeros QAP´S avisando de numerosos QRU´S. Para ele, isso soa como música. Para nossos ouvidos, mensagem de um contato imediato não terminado.

O rapaz negro virou símbolo. Depois de certo estranhamento por conta de algumas crianças, ele não as entendia. Mas nada que o respeito ao diferentemente iguais não brotasse uma amizade bonita, destas de virar a foto que virou. Um fotógrafo atento conseguiu eternizar o momento em que ele amarrava os pequenos sapatos de um guri. Ali, um laço foi feito.

Alexandre é da APAE e frequenta todos os dias o SESC Santo André. Para além de diferenças motoras, o Alê é sim uma pessoa especial. Não, na verdade ele não é segurança do SESC, mas atua convicto desta sua função. Há quem diga que não apenas os funcionários e gerência o adotou, mas também usuários que já interagem com aquela figura querida que cuida da unidade de Santo André como se esta fosse sua casa. Mas, quer saber a verdade? Fomos nós os adotados pelo carinho dele.

Deixei o SESC Santo André em 2008 e retornei em 2011. No primeiro dia em que fui entregar as papeladas, Alexandre me encontrou, olhou e sorriu para mim com um delicioso “Que Bom, eu sabia que você voltava”. Ele jamais me esqueceu. Hoje, “trabalhamos” juntos. =)

Para o Alê, com carinho.

Diário de Viagem: Parte II – Pequenos Milagres

19 dez

Continuação

Nada na vida é fruto da perfeição. Claro que alguma coisa deveria acontecer nesta viagem, até porque, não seria uma das minhas viagens. E foi isso que eu estava pensando, enquanto tomava meu banho já descansada da aventura do dia anterior.

Abri meu caderno de programação, aquele que tinha escrito “Uma história como lembrança” e ri. Ali, eu teria de reorganizar meu tour por Paris, abrir mão de algumas coisas. Eu apenas tinha de chegar lá. Já estava conformada quanto a receber minha bagagem apenas em Janeiro. O que eu ainda tinha na mala que ficou em Nantes dava para seguir meu roteiro. Bendita Santa protetora dos viajantes que proporcionou a brilhante ideia de lavarmos as roupas durante nossa trip. Ainda bem que a Pri me ajudou com isso.

Ajeitada minha bagagem, lembrei de colocar os presentes da Air France. Quem sabe aquela camiseta branca me serviria de alguma coisa? E aquelas coisas todas de higiene. Só não sei em quê me ajudaria aquele creme de barbear, sei lá. Daria de presente para meu pai.

Ajeitado tudo, Dani ligou. Minha mala havia chegado! Que emoção em rever minhas coisas! Prontamente, partimos para o aeroporto, recuperamos a mala e seguimos para a estação de trem. Ali mesmo, Pri e eu abrimos as bagagens e preparamos a outra mala. Pronto! Eu estava completa para encontrar a Cidade luz.

A despedida, uma viagem de trem e, em duas horas, eu estaria lá, olhando a torre enquanto o dia se despedia e a noite me brindava com luzes. Quando o trem parou em Paris, perguntei ao senhor ao lado se realmente eu estava lá. Ele confirmou e eu comecei a chorar.

Ali, era o meu sonho desde a infância. E, se eu havia demorado 25 anos pra pisar naquele lugar, ninguém nem imaginava a loucura que foi o dia anterior. Era o meu presente da vida. Na saída, um francês elegantérrimo me ajudou com as malas, uma argelina me ajudou a empurrá-las até a saída e um turco me conduziu até o hostel em seu táxi. E me cobrou 2 euros para me ajudar a tirar as bagagens do porta-malas. (Sacanagem, né?)

Quando adentrei o Le Bastille, a atendente olhou para mim, para minhas coisas e perguntou se eu estava sozinha. Confirmei. Depois disso, fez questão de enfatizar que era ridículo eu, só, com aquelas duas malas. Ah, a elegância dos parisienses me contagiou. Não deixei barato e, sorrindo, educadamente retruquei:

- Nossa, e como é ridícula a sua gentileza, não?

Ela ficou muito envergonhada e queria se desculpar de alguma forma, mas me mantive firme. Larguei minhas coisas e a noite me convidava. Eu iria conhecer a torre.

Adentrei por entre o fácil metrô parisiense, me perdi por entre a música dos artistas que ali estavam e me encontrei em cada linha e pelo pulsar do meu coração. E ela estava lá. Altiva, iluminada, sorrindo pra mim como que um “Bem-vinda, Nathalia! O seu sonho agora é real”. E eu chorava, chorava e sorria e tirava fotos. E estava sozinha. Nestas horas, você quer puxar alguém muito íntimo e pular com esta pessoa, enfatizando que maravilha era aquilo tudo. Mas meu telefone não funcionava na França e tive a consciência de que, algumas coisas na vida são muito pessoais. E aquela era uma delas.

Não conseguia ir embora, eu virava para partir e voltava pra olhar mais um pouquinho. Parti para a Champs- Élysée. E ali, uma multidão esperava alguma coisa. Achei que, pela concentração de pessoas, algum acidente tinha acontecido, mas não. Em poucos minutos, a avenida ficou toda iluminada. Era a inauguração das luzes de Natal e, pasmem, meus queridos! Quem inaugurou foi a Audrey Tautou, a Amélie! E foi muita emoção para meu coração.

E assim pude conhecer a Bastilha e lembrar das aulas do professor Frank, contemplar o Angeline, provar a gastronomia parisiense, ouvir um senhorzinho tocar “La vie en Rose”, em plena Sacré- Coeur. Esta era a minha Paris, apesar de esperar mais dela.

E já estava quase na hora de partir, quando, após o check-out, pedi para guardar minhas malas. O caminho me foi mostrado. Um porão com pequeninas escadas. E eu com uma mala de 23kg e outra de 20kg. Pedi por ajuda, mas ninguém me ajudou. E lá fui eu, puta da vida e com um grande desafio. Ou eu colocaria as malas ali ou eu não veria o sorriso de Monalisa. Fui muito corajosa, conheci o Louvre, outros lugares e retornei. No meu retorno, todos se negaram a me ajudar. Foi quando eu me nutri de uma força que sabe Deus de onde tirei e fui subir minhas malas.

Degrau por degrau, uma por uma, sozinha. E quando eu subi a segunda e mais pesada mala, encostei ainda sozinha naquele porão, suando, e comecei a chorar quando vi minhas mãos quase sangrando devido ao esforço que fiz. Ali, eu estava completamente só, machucada, hostilizada, mas… eu não desistiria. Limpei as minhas lágrimas e completei o meu trajeto.

Quando cheguei, limpei meu suor e virei para o parisiense que me hostilizara e disse: Eu fiz sozinha!

Quando sentei para recobrar minhas forças, um garoto do Leste europeu olhava pra mim e ria, ria. Fiquei puta:

_ Escuta aqui! Você tá rindo de quê? Você achou que eu não conseguiria? Tudo porque vocês acham que mulher no meu país é puta, não é? Mulher no meu país é muito forte!

Pausa!

Eu sei que a louca fui eu por estar com duas malas mega pesadas, mas ninguém me ajudar foi terrível!

Continua

Ele virou-se pra mim:

- Eu estou rindo de desespero.

E aí, lá fui eu conversar com o garoto tcheco que teve todas as suas coisas roubadas. Levaram cartões, identidade, passaporte, dinheiro. ABSOLUTAMENTE TUDO! E ele estava lá, pois a embaixada da República Tcheca estava custeando sua hospedagem, mas nem a grana para comer ele tinha.

Me bateu uma dor tão forte no peito. Se eu me sentia sozinha porque minhas mãos estavam sangrando já que ninguém quis me ajudar, o que diria este moço? Literalmente sem nada. Mas como ajudá-lo? Como saber que ele não estava me enganando? Bastou olhar para os olhos azuis-eslavos dele.

E aí, tudo fez sentido. Naquela hora, eu entendi porque tive que percorrer milhas e milhas para chegar em outro dia, porque ninguém me ajudou, porque as coisas aconteceram desta forma. Me lembrei de Will Eisner e seus “Pequenos Milagres”. Me lembrei da camiseta branca da Air France, da Necessaire completa, do meu estoque de chocolates e do creme de barbear. Me lembrei de que talvez, a história que eu teria de contar não era a minha, nem a dele. Eu deveria contar a história de que, em um mundo como o nosso, de hostilidades e ganância, ainda é possível encontrar humanidade.

Olhei para o garoto e disse que eu não gostaria que ele se ofendesse, mas eu queria contar uma rápida história que vivi naquela semana. Contei e cheguei na parte em que eu tinha algumas coisas que ganhei e, até aquele momento, eu não sabia para que elas serviam. E que eu havia descoberto.

“Mas você vai abrir as suas malas?”

Joguei minhas malas no chão e comecei a procurar a camiseta, a necessaire, me desfazer de alguns chocolates e ver o que eu mais tinha trazido por pura cobiça, mas que seria necessário a ele. E eu entreguei meu primeiro presente de natal.

Quando olhei, ele estava chorando. Me explicou que não era de tristeza, mas de alegria. Que era impossível alguém fazer aquilo por outra pessoa e mais ainda, que Paris tinha sido um terror, uma descrença para ele… até agora. Foi quando eu expliquei que de onde eu venho, as pessoas são assim. Que isso era um pouco do Brasil e que, em Londres, quando eu estava desamparada, muita gente me ajudou. E que, quando ele tivesse uma oportunidade, fizesse o mesmo.

Neste momento, seu sorriso era de alegria. E esquecemos as nossas dores. Mas era chegada a hora de partir. Como estava escrito na recepção que eles poderiam chamar um táxi para mim, fui pedir. E, novamente, a resposta que me acompanhou naquele lugar:

- O problema continua sendo seu!

E neste momento, um garoto que eu descobriria que era brasileiro e tinha chegado há poucos minutos, foi tirar satisfações com o recepcionista que manteve sua postura, mesmo depois do “Então, vai tomar no cu”! que o tal garoto, Guilherme, dirigiu a ele.

O Garoto Tcheco abriu as portas, Guilherme foi empurrando a mala mais pesada, eu a outra. E, pelas ruas de Paris, procuramos um táxi que, finalmente me conduziria ao aeroporto. Em pouco tempo, eu estaria na Alemanha…

Esta foi a história mais bonita que eu pude trazer para vocês. Ela fala de gente, de humanidade, de pessoas que hostilizam e outras que abraçam. São estes pequenos milagres que fazem a nossa vida valer a pena. Este é o meu presente de Natal.

Dedico esta vivência à Priscila, Daniel, Manah Manah, Ivan, Rita, Momo, à equipe do London City, à moça que me emprestou seu iPhone, ao garoto Tcheco de olhos eslavos, ao Guilherme que mal me conhecia e me ajudou, trazendo o aconchego do Brasil.

Diários de Viagem – parte I: O Terminal

5 dez

Quando eu estava arrumando minhas malas para desembarcar no Velho Continente, várias pessoas me pediram um souvernir: História. Bem, nem sempre eu planejo uma história. Elas simplesmente acontecem. Mas, no meu caderninho de programação, anotei o pedido. Eu só não sabia que a contação seria sobre mim. Um dia, um terminal, meu momento Tom Hanks, London, Pessoas, 2 vôos cancelados e uma passagem não programada à Amsterdam.

Na noite anterior, mal dormi. O vôo programado para as sete da manhã, o último dia com meu amigo, uma cervejinha e já estava na hora de acordar. Pela manhã, o táxi chegou e acabamos por dormir no caminho. Nem sabia ao certo o meu nome, mas a rotina de check-in, raio-x e “Sim, sou brasileira” já estava impregnada em mim.

A despedida por dias incríveis em Londres e lá fui eu, colocar meus batons no saquinho plástico para não serem considerados armas brancas. Naquele dia, os vôos pareciam peças de um efeito dominó: Cancelado o flight à Berna, Amsterdam, Frankfurt, Berlin e… O DE NANTES!
Imediatamente, desci, recuperei minha bagagem e não encontrei mais meu amigo. A orientação era ir até o balcão da Air France e esperar as providências. Eu só chegaria à França às 18h.

E no país do Croissant, às 11 da manhã, minha amiga estaria me esperando. Eu precisava fazer uma ligação. Na Air France, expliquei a minha situação: Eu viajava sozinha. Imediatamente, me emprestaram um telefone no aeroporto e nada! Nenhuma ligação era concluída e o desespero começou a tomar conta de mim. A atendente decidiu chamar um rapaz que falasse espanhol, para que eu me sentisse mais confortável conversando com alguém em minha língua. Mas tive de revelar que no Brasil a gente fala português.

Ivan chegou, fez com que eu explicasse tudo o que eu havia dito em inglês em espanhol. Ficou ao meu lado, tentamos ligar e nada. Foi quando ele sacou de seu cinto de segurança do London City a arma da salvação. Ele estava me emprestando seu celular. Consegui falar com a Priscila, estava mais calma. Mas.. o veredicto: Você deverá permanecer no aeroporto até a hora do embarque.

Queridos leitores, façam as contas. Isso aconteceu às 6 da manhã. Eu teria 12 horas de puro tédio em um aeroporto minúsculo e sem despachar minha mala. Mas, o que seria um pesadelo, se revelou nesta que é a minha história. Ali, eu me transformava na “Brasileirinha que estava viajando sozinha”. Virei um mito. Por onde eu fosse, todo mundo sabia a minha história. As pessoas me paravam para saber se eu estava bem, precisava de alguma coisa. Os dirigentes do London city falavam “você não está sozinha. Aqui todos nós estamos com você!” Eu era praticamnete um Tom Hanks em “O Terminal”. A Air France não me deu nenhum tipo de suporte. E lá estava eu, custeando meu café, meu almoço, minhas horas.

Na hora que decidi tomar o café da manhã, eis que surge MoMo, o argelino Mouhamed. Ele, obviamente, sabia da história da brasileirinha Tom Hanks! Então, perguntou se eu era de São Paulo. Me surpreendi. Gente, a boca pequena é uma coisa neste aeroporto. Geralmente quando você fala que é brasileiro na Europa, eles falam: “Maracanã, Cristo”. Aí, você tem de explicar que o Brasil é grande e você mora em outro lugar. Mas, os paulistanos gastam muito por lá, então são queridos e conhecidos como “Obrigado”.

Momo perguntou se eu conhecia seu país. Eu disse que sim, falei dos momentos argelinos de Simone e Sartre e ele não entendeu nada. Foi então que usei da técnica que detesto que usam em meu país. Disse que conhecia o Zidane. E ele foi todo sorrisos, me preparou café e conversou comigo. Assim como Ivan, pediu para que eu ficasse por ali para que eles soubessem se estava tudo bem.

Peguei meu café e, pela segunda vez, subi até a moça dos “saquinhos de armas brancas” para tentar despachar minhas malas e ela novamente, com seu estilo Whoopi Goldberg falava pra mim “Go Home! É impossível você ainda estar aqui.”. Cansada até o talo eu disse que estava tentando, mas o tempo não ajudava muito. Desci novamente as escadas com minha bagagem e decidi fazer aquilo que toda mulher ama para se acalmar: Compras. Fui à uma lojinha, comprei chás, praguejei contra os preços absurdos que pagamos em livros de gastronomia no Brasil, disse para a atendente que eu estava bem, obrigada, e que não aceitaria de graça o chocolate. Nesta altura, todo mundo me presenteava.

Meio cansada, me sentei ao lado de um judeu ortodoxo que também teve seu vôo à Suíça cancelado. A oração que ele fazia funcionou para mim como uma canção de ninar. Eu dormia e acordava agarrada às minhas malas. Mas acordei de vez com outro presente: Uma revista mega cara de decoração. Uma outra viajante acabou por comprá-la. Estava embarcando e decidiu me dar de presente. Eu aceitei e passei parte de minhas horas ali viajando por entre cozinhas dos sonhos.

Hora do almoço. Conheci Rita, a polonesa simpática e linda que prometeu que prepararia o melhor almoço da minha vida. E ela realmente fez o melhor sanduíche de brie com bacon que comi. Andei um pouco mais, conversava com outras pessoas e todas me diziam : Parabéns, você é muito corajosa. Eu realmente acredito nisso, visto que moro em São Paulo e estudei perto da Cracolândia. Mas confesso que estar sozinha em outro lugar é um pouco triste.

A senhora francesa que junto comigo perdera o vôo tentava me consolar quando eu dizia “Preciso chegar à Paris”. Eu disse que já havia perdido a minha ida à Versailles e que isso me entristecia tanto. Foi quando que com seu sorriso radiante e lindos olhos azuis ela me disse para ficar calma. Não perdi Versailles, eu simplesmente só ganhei uma razão para em breve voltar à Paris. E eu concordei.

Antes de fazer o segundo check-in do dia, Momo apareceu com um copo de café especial, presente seu e de Rita pela minha partida. Achei fofo. Novamente, subi, despachei as malas, me despedi da amiga-dos-saquinhos de-armas-brancas e estava pronta pra embarcar quando li no painel que meu segundo vôo fora cancelado. Aí, rodei a baiana.

Lá fui eu recuperar malas e dar piti na Air France. De uma forma forte, falei do horror que foi a falta de suporte da empresa, como este era o segundo vôo do dia cancelado e que eu não ficaria no aeroporto e nem pagaria um hotel. Eu teria de estar na França naquela noite. Depois do meu ziriguidum, me disseram: Você está pronta para correr?

PAUSA!

Querido leitor, você imagina o que se passou pela minha cabeça, não? Um retorno forçado ao Brasil e um tchauzinho de vez à Paris e Berlim. Mas me mantive firme e quis saber a respeito. Eu tinha 20 minutos para embarcar para a Holanda, a fim de fazer uma conexão à Nantes.

Corri tanto por aquele aeroporto que fiz inveja aos maratonistas. Não me pergunte de onde surgiu tanto preparo físico. Talvez, este seja o combustível do sonho de se chegar à Paris. No avião, me lembrei que não havia avisado minha amiga Priscila. Mas aí surgiu uma mulher que decidiu usar de seu iPhone para mandar uma mensagem à minha amiga. Eu amo a tecnologia.

Cheguei em Amsterdam e quase fui barrada. Queriam uma carta de permanência no país. Mas expliquei que era só uma conexão e eles começaram a me sacanear, pois acharam que eu era francesa. Neste momento, um sangue latino brotou em minhas veias e eu lembrei ao guarda fanfarrão que venho do Brasil, então que falasse inglês comigo. Carimbado o passaporte, derramaram tudo de minha bolsa para averiguação. Por fim, e puta da vida, consegui embarcar. No avião, me perguntaram se era a minha primeira vez na Holanda. Disse que sim e que nem havia programado.

Por fim, desci em Nantes, encontro o Dani, marido da Priscila. Depois de toda a aventura, só restava buscar minha mala. Quando chegamos à esteira, o aviso: As malas ficaram na Holanda. A Air France me presenteou com uma camiseta e uma necessaire repleta de desodorantes, pastas, escovas de dentes e demaquilantes. Pediram para que eu aguardasse até a manhã seguinte. Voltei para meus amigos, combinei com eles que a mala chegando ao não, iria à Paris na manhã seguinte. Mas, o propósito disso tudo eu só encontraria lá.

Continua…

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