A mesa está gigante. Pessoas preenchem todos os espaços em busca do pedaço da massa certa. Falam alto, riem, se divertem. Esta é a autêntica festa italiana. Minha família reunida  com os amigos de meu irmão, pois é o aniversário dele. No entanto, a comemoração de hoje veio desmistificar origens. Nossos vizinhos chegam. Trazem com eles a senhorinha japonesa de pele bonita. Ela logo vem me abraçar e eu me encanto. Confesso que sempre fui apaixonada pelos orientais e sua cultura. Muito além disso, aquela linda mulher de olhos puxados e batom bem vermelho arrebatou minha atenção.

A batchan  Lucia senta-se ao meu lado e esta é uma noite que mudaria muito a minha visão generalizada do Oriente. Entre um pedaço de pizza e outro, ela me conta sua paixão pelo cinema e como este é uma das cláusulas do contrato que estabeleceu com seu marido para ir à praia.  A japonesa odeia sol. “Falei pra ele eu vou, mas não faço nada. Você pesca, limpa a casa cozinha e eu fico com meus filmes”, me explica gesticulando. Surpresa, pergunto se ele concorda. Ela ri e me diz que sim, afinal, em um casamento de 47 anos tem que existir acordo.

A nossa nipônica veio cedo do interior de São Paulo para a Capital. Nascida em uma família fiel às tradições, nunca foi uma moça convencional. Namorou ocidentais, mas, ao ver o jovem japonês, me confessa que disse para as amigas “Eu quero este!”. Sempre muito decidida, entregou-se à aventura e, antes do casamento, engravidou, o que foi um escândalo para seus pais. “Engravidei aos 16 anos e meu marido tinha 19. Eu falei com minha mãe e ela queria que eu casasse. Disse que eu não queria casá, não…pra quê? Só porque estava grávida? Não, sempre fui independente”, explica sorrindo.

Neste ponto do nosso papo, já me sinto com liberdade de dizer:

– A senhora é uma japa paraguaia, confessa!

Gargalhando, ela me diz que veio para o mundo para ser feliz. Arrisco-me perguntando se é feliz no casamento. “Olha, quando casei com ele eu disse que da porta pra dentro da minha casa não queria saber de safadeza. Que ficasse claro uma coisa. Se eu soubesse que ele me traiu, eu ia trair ele com o melhor amigo dele,  juro!”. Me entrego àquela cumplicidade e a questiono se realmente teria coragem de fazer o prometido. “Minha linda, temos que ser certinha, mas se eles bobeiam merecem resposta na mesma moeda”.

Nós duas aceitamos a pizza de chocolate que nos é oferecida e cada garfada é uma descoberta surpreendente desta mulher que é lição de vida. “Meu marido é muito quietão. Fica sentado dizendo hã hã, parece velho e bobo. Eu gosto de festa, de forrozão de casa cheia com netos fazendo barulho!”. Digo que mudei de opinião. Da forma como balança os braços no ar e fala alto, agora eu penso que ela é uma bela nonna italiana que, por ironia do destino, nasceu de olhos puxados. Lucia ri.

Observo também que sua neta é mestiça. A batchan faz a observação de que nenhum filho se casou com japoneses e que isso não a incomodava, afinal, “Não sou eu que vou dormir com eles, né?”. Observando toda a história que me é contada, meus ouvidos de analista registram momentos, linhas que se cruzam e formam peças que se encaixam neste labirinto de vida não-convencional. Faço uma confissão:

– Sabe, dona Lucia, eu acho que seu marido te ama, pois um homem tão tradicional se submeteu a uma mulher extremamente livre e de cabeça aberta.

A resposta me vem taxativa “Ele? Ele era um safado. Namorava eu e mais três  mas eu fiz ele escolher. Eu acho que ele hoje ainda me ama mas sabe como é, né? Abaixei a cabeça para muitas coisas engoli muitos sapos. Até hoje ele fala que quando morrer eu logo me caso. Não não! casamento pra mim é uma vez só. Mas que eu vou beijar muito, eu vou. Beija MUUUUUUUITO!”. A senhorinha termina a frase dando soquinhos no ar e isso me diverte ainda mais.

Infelizmente, uma dor de garganta terrível me impede de continuar o papo e me leva para casa. Antes de ir embora, um último abraço sela esta que, com certeza será uma grande amizade. Lembra quando eu contei da minha paixão por tudo que é oriental? Caí na besteira de falar pra minha nova amiga que, quando criança e educada em colégio japonês, uma avózinha me ensinou a dançar como eles. Agora, esta minha companheira de prosa agradável por demais da conta me diz que cobrará a minha apresentação japonesa em nosso próximo encontro. Aguardem!

*A pontuação da fala de Lucia foi ocultada para ser transcrito, com perfeição, o ritmo com que cada palavra a mim foi contada.

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