Copa do Mundo. São Paulo para e aprecia o futebol dos hermanos. Na luta contra o cansaço e me condicionando para meu jogo mental, sofro uma contusão no final de meu primeiro tempo. Na passagem do trem para o metrô, a adversária de assentos do vagão deixa a catraca em minha perna. Meus noventa minutos não estão completos. O segundo tempo ainda está por vir. Como brava atacante, sigo em campo. Como uma mera mortal, sinto dores.

Começo a caminhar. Um grito estridente se ouve naquela rua do centro de São Paulo. Imediatamente, busco o placar. Penso que a Argentina possa ter feito ou levado um gol. Chego ao bar. Na televisão ali existente, as imagens reproduzidas são do jogo entre Nigéria e Coréia do Sul. Dezesseis nigerianos, três garçons, dois estudantes e eu. Não me intimido.

Pela primeira vez, posso acompanhar uma partida ao lado de africanos. Homens altos, negros, de traços firmes e coração de torcedores. Eles sentam, levantam, gritam para a bola na ilusão de que ela mude de trajetória. O placar de dois a dois não favorece o time da África. O jeito é apelar a Deus.

Terços nas mãos, energia positiva para os jogadores. Cada chute a gol é mais uma esperança. Eles festejam, sofrem, gritam, xingam o juiz. Mesmo falando em seu dialeto, percebo que a linguagem do futebol é universal. Só de observá-los, e sem entender uma só palavra, vejo a indignação pelos dois minutos de acréscimo dados pelo árbitro.

Pergunto ao garçom se aqueles homens moram por ali, trabalham na região. Ele diz que acha que sim. Sua única certeza é que encontram naquele bar um ponto de pátria. Há cinco anos, se reúnem ali. A Nigéria não está tão longe perto de seus irmãos. O jogo acaba. Continuo observando.

A seleção nigeriana foi desclassificada. Os grandes negros ficam tristes. Não é para menos. Sem que eu faça nenhuma pergunta, um deles olha para mim e, com jeito de criança forte, diz “Está tudo bem”. Esta é a brecha que encontro para conversarmos. Seu nome é Stanley e  há dezessete anos está no Brasil.

Toda informação que possuo é a descrita acima. Nenhum nigeriano falou comigo. Talvez, eu seja a mulher intrusa naquele lugar que a eles pertence. Saio com uma experiência muito enriquecedora deste episódio. Não invadir o espaço deles é a forma que demonstro meu respeito.

Eu me recomponho e, mesmo com dores, continuo o resto do meu jogo. Chego ao destino com aquele sabor de gol de quem suou a camisa em uma partida fora de casa. Percebo que a sede do mundial não é tão longe. A África é logo ali.

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