Esta é a segunda vez que visita nossa loja. Cumprimenta a todos com um sorriso largo e radiante. Enquanto palpito no casamento de sua filha, dona Benigna olha atentamente os produtos na prateleira. Um deles chama a sua atenção. “Você sabia que não é uma fruta japonesa?”, conta-me a mulher do bem, enquanto aponta o Kiwi da essência de óleo bifásico. Digo que desconhecia a informação. “Pois é… é uma fruta holandesa. Mas sabe como é, né? Japonês chegou e disse que o direito da descoberta era dele. Vê se pode!”.

Sempre digo que as pessoas “anônimas” trazem consigo sabedoria de contador de histórias. “Como sei disso? Eu amo ler, leio tudo… tenho livros do arco da velha, tem que ver”. Viviane, primogênita da senhora que carrega bondade, a interrompe e me conta que aquela mulher com “07 de anos ao contrário” é inteligente demais. Por esta razão, enfrentando os números do tempo, voltou a estudar.

A proprietária de nome maniqueísta está no terceiro colegial. Seus cabelos brancos não a fazem menos criativa. O maior sonho que possui é o de viajar pelo mundo. Enquanto o dinheiro não se ajunta e a coragem ganha mais força, usa a leitura como meio de transporte. Ao contrário dos aviões que faziam com que ela se escondesse no abrigo anti-bombas de Salvador, durante a Segunda Guerra mundial, acredita em sua determinação como voo de liberdade.

Bê, como gosta de ser chamada, aborda vários assuntos. “Como pode  as pessoas atribuírem a invenção da pizza aos italianos? Só porque eles usam molho de tomate fresco e queijo local? Bobagem. “ Segundo ela, existem informações desencontradas no mundo. Esta defesa e ataque que sustenta com tantos gestos e interpretações formam a essência de mais um desejo: ser advogada.

Após um pedido da professora sobre fomentar uma acusação e defesa a respeito de um tema, Benigna não teve dúvida. Não poupou esforços para abordar um assunto que chocou o país. Ela condenou o casal Nardoni. Agora, a nossa personagem ousada prepara uma tese sobre saúde pública, assunto que a incomoda muito.

O microuniverso da escola tem sido pequeno demais para ela. Mais uma vez, é preciso suprir-se de bagagem para pousar em outros cantos da Terra. Lendo sobre História Antiga, ela refaz um cenário para conhecer a história de sua família. Para ela, Roma era igual ao período que o mundo viveu entre 1939-1945.

A senhora do destino lembra que para escapar da convocação do exército para lutar na Europa, o pai colocou fogo na própria perna. Tempos difíceis que Bê recria para se transformar. De tudo, sempre sobra resquícios do lado bom das coisas. Ela sorri e continua proseando.

Esta aventureira conta que, apesar de feliz, “é um pouco esquentada”. Usando-se da lateralidade de batismo, confessa que nunca foi muito convencional. O seu Bem existe distorcido pela felicidade que ela consegue escalar através da rota mental de sua viagem de palavras cotidianas.

A antiga enfermeira casou-se com um paciente. “O lituano lindo e sete anos mais novo que tinha voz delicada”. Ele era muito querido. Contudo, a morte do senhor Boico fez com que o cruzeiro da vida dos dois não terminasse, mas mudasse o trajeto. Por sentir-se só, ela voltou para o Supletivo e nunca mais parou de desembarcar e embarcar nas letras e no mundo.

 A Benigna é do bem, literalmente. Mulher forte na vida e nos sons. Pequena grande pessoa. Menina que se deu o direito de viajar e ser alguém em constante transformação. Exemplo de que tempo cronológico é só uma sistematização feita pela ciência. A mulher que faz o melhor bolo de fubá do mundo, que usa tênis e jeans. Caminha até a fotocopiadora para imprimir mais um roteiro. O mapa em suas mãos indica o destino: algumas páginas sobre a África que falam de liberdade.

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