– Maria! Como você está?

O sotaque italiano lembra Roberto Benigni levando as mãos ao céu e recebendo as chaves.  As palavras aqui cantadas têm dedos abertos esperando o milgare. A voz do outro lado da linha parece familiar. O amor que as liga não permite que ela seja totalmente esquecida.

-Ah, é você! Por que ligou, tem novidade?

Novos acontecimentos não existem. Nem o casamento esperado vai acontecer de imediato. Quando a futura noiva era menina, os cabelos brancos de Maria não acreditavam que a neta não sabia cozinhar. Bolinhos de chuva com segredinho de limão foi a solução para desencantar a dona de casa moderna que existia na pequena.

Anos depois, já mulher feita, a garota descobriu que tinha o talento dos alquimistas dos sabores. Assim como as receitas que aprendia como presente, viu que as palavras são ingredientes tão mágicos quanto.

Da nova experiência, surgiu a idéia. A tradição de uma nonna italiana não deve ser sepultada com ela quando esta se vai. Maria vivia preocupada de deixar esta vida tão órfã quanto a receita de sua engartelada. Contudo, não contava que aquela menina que mal fazia um ovo mexido moldava a massa de pão como as palavras que ela tinha tanto carinho.

De 93 primaveras é feita esta nonnina. Exemplo de mulher forte, de cabeça boa. No entanto, sua caminhada de passos firmes se fez tocaia do equilíbrio. Ela caiu. Em cacos ficou seu fêmur. Depois de uma longa cirurgia, sua memória era espalhada em pedaços.

Dentro de seu coração, a minha Maria passa seus dias. As pessoas a quem propiciou gerações não são mais tão íntimas a ela. Usa seus sentimentos como bússola para lembrar de um rosto ou do dia em que está.

Quem a conheceu lamenta sua atual condição. Seus dias em fase  de recuperação eram vividos na poltrona de casa. Em sua mente, ela estava em uma terça-feia qualquer, no banco da igreja conversando com sua Santinha.

A atual moradia para ela não existe. Acredita que ainda vive cercada daqueles amigos que já partiram. O endereço? Aquele que ela trancou a porta, pela última vez, há 20 anos. A senhora que com 15 anos arrebatou o coração do maior dançarino de tango da Mooca luta diariamente para se encontrar…

                                                                                                              *

Maria,

Para você não esquecer, escrevi um pouco da tua história. Sei que não é muito, afinal, quase um século de vida é feito de imensos detalhes. Assim como você pegava aquela caixa de fotos para me mostrar a família, estou te mostrando a tua vida. Não precisa acordar de madrugada e procurar a caixinha e chamar pelo me nome afim de tentar resgatar quem você é. Todas as vezes que se sentir confusa, pegue esta cantiga que te fiz pra não esquecer deste amor que te envolve. Sabes que só quem te chama de Maria sou eu, então, esta fica sendo nossa primeira pista.

Te faço uma promessa. Vou aprender a receita com você me ensinando, dando bronca quando abro a massa errada. Aí, eu contarei a história deste nosso saboroso encontro.

Um beijo da tua neta.

Nathalia Triveloni

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