Se abrir o mapa, as taxinhas que marcarão os lugares vivenciados serão muitas. Praticamente, um colar de miçangas de lembranças abraçará o mundo. E ele abraçou. Tão vivo quanto o vinho, o sorriso a La Valdívia e o nome que Lady Gaga fez ecoar pelo planeta tecem com vivacidade este mochileiro.

Alejandro Morales, 54 anos. O Chile consta como berço de pátria amada, mas o coração é de cidadão do mundo. Aos 12 anos, fez dos livros meio de transporte para conhecer as causas da desigualdade do mundo. Sua grande viagem se fez em solo chileno, quando ingressou na juventude comunista.

As demarcações territoriais não eram o bastante.  Gente é gente em qualquer canto da Terra. Este respeito e igualdade era o que almejava. Aos 13, o garoto franzino foi crescendo e a bagagem já não cabia em casa. Com a benção dos pais e a promessa de que mandaria um telegrama a cada chão marcado, ele partiu.

Os anos que se seguiram não foram fáceis. Allende no poder era sinal de mudança. Mas tudo estagnou. As vozes que alçavam o possível viram-se impossibilitadas de falar. A ditadura chilena se firmava e a faculdade tornou-se destino radical. A engenharia com sua precisão não tinha espaço no mundo das palavras de ordem que reverberavam no coração de Alejandro.

Matrícula trancada, porteira aberta. Ser livre era uma equação ainda a ser resolvida. O gringo trancou o cadeado da opressão e embarcou para as possibilidades arriscadas de seguir seus ideais.

Debaixo dos caracóis daquele cabelo, a poeira da estrada encontra abrigo. De mochila nas costas e grandes paixões, o homem de sorriso fácil vai contra toda a ideia de “tiozão de meia- idade”.  “Ela me disse assim, Alejandro, você tem síndrome de Peter Pan. Ah! Vai tomar banho! Eu sou o próprio Peter Pan”. Ri alto com sotaque carregado e colar feito por ele. Assim, não deixa as suas origens perdidas nas andanças.

A alma de hippie está além do artesanato que faz. Anos atrás, a mãe, ao vê-lo de cabelos longos e roupas sujas de tinta, deixou com a nora 700 dólares para que ela desse jeito naquilo que chamou de “esta educação que não dei para meu filho”.  A personalidade é singular.

Alejandro é pai de quatro filhos. Embarcou duas vezes no estado do matrimônio.  Beth, a primeira esposa, abriu as portas da Áustria para este aventureiro. Desta jornada, nasceram dois guris que se dividem entre América e Europa para explicarem suas origens. Já Amparo – a filha de libaneses com olhos lindos-  não lhe proporcionou apenas as estrelas. Ela deu a ele a Lua, filha caçula deste gringo. Com os rebentos, divide os ideais da juventude e a parceria em um bom show de Rock. Mas quando o saco fica cheio, “eles me chamam de velho e pai!”

Alemanha, Áustria, Brasil…  conversas com judeus a favor de um Estado palestino. Papo com amigo de juventude que, apesar de ter provado da boa erva, hoje critica a filha pela conduta. “Se tivéssemos feito certo, o mundo não estaria como está, falo pra ele”.

Para Alejandro, a liberdade é essência. Essencial é estar de cara com o novo, aprender sentimentos em outras línguas. Sofrer por ser discriminado no próprio país e alegrar-se em ser tão bem recebido pelo abraço estrangeiro.

Para ele, ser hippie é ACREDITAR NO AMOR. Viver paixões. Carregar a mochila. Lutar por um mundo que aceite a diferença dentro da igualdade.

Se fechar os olhos e ouvir o modo apaixonante com que conta sua vida, você chega a acreditar que ele voa. Não há como negar que seus cabelos são brancos. Mas aquele coração parece que nasceu para caber nas asas que carregam a ousadia da juventude.

 Trilha sonora:  http://www.youtube.com/watch?v=avGAe9EVkjc

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