CRYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYY Baby!

E foi este som que invadiu meus ouvidos quando a porta da Casa velha foi aberta para mim. Percebi que ali era um lugar especial.

As chaves giram. As mãos que abrem o portal fazem parte de um homem que abriga membros de corpo e alma. A camisa amarela ilumina um lugar escuro, mas cheio de vida. Cheguei a um Antiquário. Não. Estou em uma filosofia.

Com o cabelo bem curto, nariz afilado e sotaque bem paulistano, aqueles olhos que enxergam a magia da vida ocultam os 45 anos de vista.

O universo “Casa velha” começou quando este homem comprou um boneco do Peter Pan. O menino que jamais cresce era espelho da sua alma. Este casarão tem cheiro de colo de vó e histórias de um mundo inteiro. Entre tantos objetos que um dia pertenceram a alguém, um outro alguém vive. Ali, ele encontra oxigênio e humanidade.

Aquelas paredes deixaram de ser espaço físico para ser um mundo. Para este mentor Rock and Roll, o planeta está morrendo. As pessoas não se importam com muitas coisas, inclusive com sentimentos.

Naqueles compartimentos onde nenhuma caixa permanece vazia, ele guarda lembranças de Marias, Clarices, Pils polacos e Nagoyas japoneses. E todas estas vidas renascem com respeito.

Apesar de falador, Evandro é acanhado.  Levar sua vida agitada de forma pacata é um lema. Superação é sua palavra de ordem. Aos poucos, a mandala que rege este templo vai se constituindo.

O homem que abre sua vida propaga milagres. Há pouco tempo, realizou o desafio de subir uma montanha carregando sua bicicleta. Todos diziam que ele não conseguiria, em razão de seus quilinhos a mais.

Os olhos fixos no cume. Bike em punho, pés firmes. Ele chegou ao topo.

“Se eu não consigo escalar a montanha, contorno ela. Se não consigo levantar uma pedra, eu salto ela.”

Sabedoria é uma coisa que não se aprende em escola. Evandro não é formado com diploma, mas entende de arte feita com a mão, como doutor. Empunhando uma cadeira antiga, mostra como a partir de como prego está e da disposição da mola, é possível datá-la.

Mammaaaaaaaaaa,  UH UHUUUUUUUUUUUUUU!

Ao som de Queen, um acorde que compõe algo mais clássico é lembrado. A guitarra da música é interrompida pelas lembranças de um violino do Rio de Janeiro. Foi numa destas buscas de objetos que contam histórias que um rapaz que nada combinava com o instrumento apareceu. Sem muita cerimônia, aquele fazedor de som triste brilhava. Alemão e talhado à mão. Ele surgiu naquela feira em Niterói como um milagre. A belezura foi comprada por R$ 500,00. Uma bagatela para algo tão valioso.

Depois deste encontro, nada mais interessava naquele lugar. Evandro fez o caminho de volta e no trajeto uma dúvida apareceu. Seria o violino fruto de um roubo? Estabeleceu contato com amigos do cenário musical, pesquisou e… nada! Talvez, o instrumento estivesse destinado a alguém que apesar de compra-lo por tão pouco, sabia muito do seu valor.

Dias atrás, outro comprador apareceu. Então, Evandro pegou seu tesouro e, ao entregá-lo ao rapaz discursou do quanto valia algo que foi feito com a alma para ser tocado com ela. Os dois choraram. O violino hoje sussurra em algum canto do país.

Este reflexo de valores, que atualmente de tão escasso até nos assusta, surgiu do reflexo de um espelho. O Evandro de hoje é a mutação de um egoísta do passado. Família e amigos para ele fazia parte de um cotidiano e não de seu coração. Nesta inda e vinda de fúria, num natal, ele foi presenteado com um espelho de 1.80m., sua altura.

A “brincadeira” que o deixou zangado veio de um amigo. O intuito era o de instigá-lo a ter coragem de se olhar todos os dias. Depois de sua primeira visita a si mesmo, ele decidiu mudar.

Hoje, para Evandro vidas passadas estão além dos livros de Kardec que lê. Sua antiga pessoa morreu e dela renasceu alguém que fez do amor ao próximo filosofia de vida e atmosfera de sua casa velha.

O cuco da parede não dá um piu, mas meu swatch anuncia que é hora de minha partida. Antes, agradeço a porta que foi aberta para mim, os objetos que pude conhecer e uma vida toda que se conta contando outras vidas.

A casa velha tem porta pra rua, mas ela é trancada às chaves.  Se quiser conhecê-la, esteja aberto para adentrar naquilo que chamamos de humanidade.

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