Barbas longas e brancas. Cabelos penteados para trás. Não pode ser o papai Noel, afinal, estamos a dois dias do dia da criança. Mas a magia deste momento permanece ali por todos os dias do ano.

Munida de meu guarda-chuva vermelho, não ando por floresta e nem vou encontrar a vovozinha. Sou uma simples pessoa a caminho do supermercado. Naquele trajeto tão conhecido por mim, encontro um senhor agachado na praça, plantando não apenas mudas, mas cenários de vida. A imagem é tão estranhamente bela que como feitiço uma espécie de imã me conduz a perguntar o quê, em meio à garoa e ao frio, este nobre senhor encantado faz.

Dirceu, 80 anos, é um jardineiro fiel. Ninguém lhe deu esta missão, mas suas longas mãos fazem questão de semear o verde no mundo. A transpiração de seu gesto está além de contos de fada. Ela é real. O homem que afofa a terra mora no Bairro do Jardim Santa Cruz, em São Paulo, há 34 anos. A dedicação para com suas crias vegetais é grande. Quando atingem o máximo de seu espaço no lar de Dirceu, elas têm suas mudas transportadas para deleite público. Muitas vezes, até a planta em sua completude é colocada para oxigenar o ar de todos. Tirando uma folha de Guiné, me entrega para que eu também faça parte deste seu universo comum. Deste jeito, a história começa a ganhar cheiro próprio.

Juntos pela natureza, passeamos. Com sua fala pausada, me conduz até o pé de café que há anos fincou na terra. Por entre aquelas formas de sabor, muita história já foi vivida. Alguém deve ter dado os primeiros passos ali. Ou caiu de bicicleta. Ou selou o primeiro beijo de um namoro. Ou amassou o boletim da escola ou… Agradeceu por alguma graça alcançada, já que em seus pés, oferendas foram postas.

Dirceu vive é de alimentar o mundo. Engenheiro elétrico de formação, já deu muita luz por aí. No dia de hoje, antes de acarinhar suas plantinhas, criou um mecanismo de flashs para alimentar as câmeras do filho fotógrafo. Tudo isto é fruto do ofício desempenhado durante 35 anos na Philips. Ele lembra de cada cálculo necessário para fazer lâmpadas brilharem e o mundo girar a todo vapor. No entanto, confessa que nome aquela cabeça que parece feita de fios de neve não se recorda, não.

Por último, ajeita a dama da noite que plantou há pouco, mas que marca presença exalando seu perfume. “Você reparou numa coisa? Sou Dirceu, um homem que planta numa praça chamada Dirceu de Castro Fontoura”. E assim ele sorri, tendo a certeza da poesia de suas ações.

Derrubando paradigmas entre feito da razão e atos da emoção, Dirceu cultiva o mundo para quem ele nem conhece. Mesmo assim, plantar o eterno no chão lhe dá um elixir de longevidade. Batendo as mãos para limpar a terra, o jardineiro fiel dispensa meu acobertado vermelho. Ele está voltando para o seu mundo de números, carregando a magia do aroma da vida.

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