Um convite… não, não, foi uma ordem. Chá com uma majestade, com hora marcada. Uma espécie de tutora para os aprendizados daquela mulher da realeza. Eu deveria chegar, tirar as dúvidas que ela tivesse e, se fosse de minha vontade, não precisaria voltar para a casa de minhas letras. Eu poderia ir para a minha mesmo. Como minha avó sempre me ensinou, nossas vestes representam respeito para com aqueles que iremos encontrar. Separei despretenciosamente uma camisa de flores, com mangas e gola lembrando o estilo rainha e ela adornou o restante do meu figurino negro. Reforcei maquiagem, escolhi um perfume discreto e confesso que havia um frio em minha barriga.

Um carro me conduziu até o castelo, eu desci e fiquei parada, esperando as coordenadas, treinando para escolher minhas palavras na medida exata. Tudo teria que ser perfeito, como mandam os protocolos. A porta abriu e uma escadaria me esperava. Subi com passos medidos, ereta e esboçando um suave sorriso para a empregada. É costume meu cumprimentar as pessoas com beijos, mas eu não poderia fazer isso ali. Qundo entrei naquele ambiente claro, aconchegante, mas sem carinho de lar eu a encontrei.

Ela estava descalça, mas isso não ofuscava a sua beleza incrível e sua simpatia ao me encontrar. Sem cerimônias me sentei e começamos a conversar, enquanto ríamos de sua cachorra me implorando carinho. Não me senti intimidada diante dela, pelo contrário. A cada palavra, um novo assunto e a sensação de que eu a conhecia há anos, que crescemos juntas e da mesma forma aproveitamos nossos 25 anos. As dúvidas eram sanadas, não havia silêncio durante o tempo em que ficamos juntas e parecia que ela criava outras dúvidas para que meu tempo ali fosse maior do que o necessário.

Com o trabalho feito, a despedida se fazia certa. Mas, antes ela me ofereceu um café. Educadamente, aceitei e ela mesmo, ainda com os pés no chão, fez questão de prepará-lo. E me trouxe em sua xícara requintada e com adoçantes que eu recusei. E aí, o assunto era café e ela se maravilhava a cada sabor que eu explicava e, confessou, ainda chocada, que admirava minha alma aventureira e meu despreendimento de ter provado o Kopi Luwak dos intestinos daquele bichinho. Nos olhos dela, naquele momento, pude perceber que sua vida não era fácil como parecia, que aquelas paredes de cristal a sufocavam, que ela buscava esta aventura que eu, batalhando para pagar as contas tinha. Talvez eu fosse o cego mascando chicletes naquele conto de Clarice.

A noite caiu, me despedi e ela perguntou de que forma eu voltaria para minha casa. Ônibus? ( eu confessei minhas crises de pânico depois de um assalto, acabando com minha coragem de guiar um carro, por enquanto). Ela não deixou. Calçou seus sapatos e pegou seu carro, e me levou até meu destino. Me despedi, desejando-lhe sorte, com carinho de quem encontrou uma pessoa que vale a pena. Voltei me perguntando os motivos pelos quais ela aceitava aquela vida, aquele casamento.

Quatro dias depois, soube que ela havia deixado seu castelo, o glamour de um título real e decidiu se aventurar nos seus 25 anos. Em um primeiro momento, sem ter proferido qualquer palavra sobre, eu me senti culpada. Depois, entendi que eu realmente era o cego mascando chicletes que fez com que Ana quisesse fazer diferente.

Não tive mais notícias suas, mas verdadeiramente espero que ela esteja muito feliz.

Para ela, para o sorriso de Mona Lisa.

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