Escada, escada, escada. Plataforma. UAU! Metrô lotado novamente! Uma alegria diária de todo paulistano. Estação Santos-Imigrantes entram mais dois. Chácara Klabin nunca tem passageiros a oferecer, Ana Rosa já é conhecida como “A nova Sé” e o Paraíso, bem… tá bem mais pra inferno no quesito lotação, falta de educação e almas perdidas. E é exatamente nesta parada que um burburinho surge no vagão.

“Ei, cuidado aí”, “Tá pensando o quê?”. Com os meus óculos escuros protegendo meus olhos recém salvos de uma conjuntivite, tento me virar pra saber o que me aguarda. Constatei de imediato: Estavam todos cegos. As pessoas acotovelam e resmungam a respeito de um passageiro que parece não ver nada pela frente. Ninguém percebeu que ele era um deficiente visual? Chegando ao meu lado, pergunto ao rapaz em qual estação irá descer. Assim como eu, ele opta pela deliciosa Brigadeiro.

A porta se abre, eu o puxo para junto de mim e, em seguida, para a plataforma. Ele prefere apoiar-se em meu ombro a segurar meu braço. E assim, Laércio e eu, com nossos olhos fragilizados respiramos aliviados. Ainda indignada, pergunto se todas as vezes ele se aventura por trens lotados e pela visão prejudicada das pessoas. Isso é normal. Parece que se acostumou com a terrível tarefa de ser diferente e eu não me conformo na capacidade em que muitas pessoas têm de serem iguais no preconceito.

Pedimos informações, uma funcionária do metrô melhor preparada que eu o conduz até o seu destino. Laércio abandona o profundo da terra para encontrar a luz do primeiro emprego. Ele trabalha e segue o igual destino de muitas pessoas que ali estavam e que não permitiram serem atrapalhadas por segundos e amparo sobre os trilhos.

Neste ensaio sobre a cegueira, sobre óculos escuros e visões deturpadas, conhecemos o olhar embaralhado da rua.

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