Sai da escola, entra no carro, come qualquer coisa, Moinho Velho sentido Santa Cruz. Entre o horário do primeiro tempo do colégio para o segundo, cortar o cabelo enquanto se lê “A hora da estrela”. Esta é a vida, este é o clube de um vestibulando. Tudo seria programado, estudado, se não fosse pela memória que até hoje insiste em pintar de sangue meus pensamentos.

Na rua Domingos de Moraes, um farol fechado. Carros esperando acelerados sugar os poucos minutos de almoço que lhe restam. Tudo seria maquinado, mas os grupo de skinhead’s que chega muda a trajetória daquele dia. Meus olhos não conseguem acreditar. Quatro rapazes munidos de suas corajosas barras de ferro enfrentam dois homossexuais. A príncipio, tudo parece uma grande brincadeira, mas o vermelho que desenha o rosto do garoto magro que treme e grita de dor faz daquela cena algo real. Um senhor do carro ao lado decide romper o silêncio. Ele sai, enfrenta de peito aberto os covardes carecas:

“Vem bater em mim, vem. Vem bater em quem consegue enfrentar vocês, seus filhos da puta!!!!”

Eles fogem e nós descemos. Ligo 190, chamo a polícia. No auge dos meus 17 anos, choro como criança, junto com os dois rapazes. Esta é a minha maneira de ser solidária. Um pouco de água, açúcar, eles vão embora e eu também.

Em tempos de Bolsonaros e Myriam ´s, a liberdade de expressão tem sido distorcida pelo preconceito. Agressões não são apenas demonstradas na novela, na vida real por barras de ferro. Elas vêm cravadas em palavras, num jato amargo que contamina e incita quadros como aquele que eu vivi como espectadora e por uma certa covardia ( até pode ter sido, não?) não pude fazer nada. Talvez, este texto seja a minha forma de gritar um grito atrasado pela realidade que deputados ainda não vivenciaram diante da navalha na carne.

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