Um sábado à tarde pode nos trazer descanso, música, cheiro de bolo de avó, café preparado ainda no coador. Um sábado à tarde trouxe pra mim uma missão e ela me entregou mais uma história pra eu construir.

Branco, macas, balões de oxigênio e quatro mulheres deitadas naquele sábado onde o sol entardecia com o frio e eu cuidava de minha avó. Uma senhora de cabelos louros elegamentemente finalizados em um coque arrebatou minha atenção.Ela cuidava de sua irmã, vítima de um atropelamento. Tenho a estranha mania de olhar para as pessoas e escrever a história de vida delas em meu pensamento. Aquela mulher, com toda certeza do mundo, deveria ser uma senhora destas famílias quatrocentonas, ela toma chá às três da tarde, viaja frequentemente à Paris e visita exposições de outras amigas que pintam quadros por hobby. Detesto confessar, mas estes pré-conceitos que carregamos me irrita um pouco também.

O sono dançava por aquele lugar e estava me chamando pra uma valsa também, quando ela puxou conversa sobre meu livro em inglês. Perguntou se eu era fluente, confirmei. Contou-me de suas já suspeitas viagens ao exterior, sobre como tudo era diferente, sobre a língua que também aprendera em seus tempos de secretária excutiva. E se lamentou por ter abandonado sua carreira para seguir sendo esposa.

Zuleika. A surpreendente dama da sociedade veio a mim revelar uma nova profissão com orgulho. Após eu perguntar qual era seu ofício, orgulhosamente declara que é mestre de obras. A senhora é mestre de obras? Sim. A imponente mulher se casou, teve três filhos e uma vida que não pediu a Deus. Para ela, é pecado ter pensado deste jeito, mas era verdade. Um dia, decidiu que não deixaria sua edícula abandonada e foi então que se dirigiu ao marido, detentor de bens e de seu destino, e sugeriu que o lugar fosse reformado. “Não tenho dinheiro e nem tempo para ficar pensando nas besteiras que você inventa”. Esta frase não a fez parar. Foi aí que dirigiu seu tiro certeiro e trilhou seu novo caminho a partir de “Então, compre o material que eu mesma faço”. E ela fez.

A senhora Zuleika arregaçou as mangas, fez o marido presenteá-la com os materiais e iniciou a sua primeira obra. Ela e um pedreiro mexiam massa, subiam paredes, coloriam de vida aquelas estruturas que se erguiam junto com a liberdade.O marido nem chegava perto daquele monstro desforme que acreditava que sua esposa entediada estava fazendo. Mas, um dia ao chegar em casa, se deparou com a empregada voltando com a térmica do café. A curiosidade lhe bateu às faces e ele perguntou à mulher se ela já havia visto a pequena casinha dos fundos. “Vi e o senhor devia entrar lá pra ve como tua mulher é capaz. Ela trabalha duro e tá deixando aquele lugar uma belezura.” Ele foi… também surpreendido.

Zuleika é de uma época onde bons casamentos construíam imagens, mulheres só entendiam de reforma de guarda-roupa e jamais comandariam homens. Mas ela não é assim. Tempos depois, começou a fazer pequenas reformas e comandar pedreiros, sem nunca deixar de apanhar tijolos que constroem sonhos. Ela se separou, montou sua pequena construtora e conquista o mundo com sua feminilidade e força provando que aparências enganam e que personalidade constroem casas e destinos.

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