Lugar inóspito, mas poderia ser selva. As linhas que amparam o chão são tortas tais quais os inúmeros pensamentos. Olhar para baixo é costume, olhar pra cima também. Tem vezes que se esquecem de olhar na horizontal. Dizem que seus habitantes já podem ficar eretos, que possuem controle das mãos, que com a inteligência conseguem cozinhar alimentos, sair pra caçar, raciocinar antes de elevar as mãos ao céu e pedir a benção para alguma divindade…

“Mauá, 12 de julho de 2011

Três adolescentes, creio que entre 14 e 15 anos, vêem um rapaz, passam por ele cochichando e rindo, passam por ele, e após se viram de costas, apontam o dedo para o rapaz e não cessam as risadas. O rapaz em questão era eu.

A realidade já mudou bastante para com os portadores de alguma deficiência, mas essa é uma prova de que falta muito para vivermos num país onde se respeita a diferença.”

Palavras de Gilberto Santos Menezes ou Giba, para os mais íntimos. Morador da realidade clandestina que é Mauá – São Paulo – Brasil – Mundo, assim como centenas de outros habitantes, ele é o alvo. Gilbertão é pequeno em estatura. Problemas de saúde cessaram seu desenvolvimento, mas jamais impediram a grandeza de sua vontade. Com suas muletas que dançam por entre os buracos de ruas desprepardas, ele segue a vida e disputa o cotidiano com gigantes.

O Giba que eu conheci na faculdade. O cara dirige, o cara se formou. O cara é o cara, porque, pensa bem. Você acorda todos os dias maldizendo mais um dia de trampo, o cansaço, sua vida profissional monótona e reclama do trânsito infernal de São Paulo. O pequeno é diferente, ele desperta agradecendo a Deus pela força que tem, pela capacidade de dirigir seu possante, caminhar sem ser fulminado pela pena ou preconceito. Cara, Gilberto é o cara ou não é?

É… cara. Tem gente que julga o livro pela capa, o conteúdo pela embalagem, alguém que não é produto pelo seu físico. Nos acostumaram ao belo. Só não ensinaram que a noção de beleza é subjetiva, que não só vem carregada de ossos ou olhinhos claros. O belo é aquilo capaz de despertar em nós a inspiração, um poema ou… até mesmo este texto que há tempos eu venho gerando dentro de mim e hoje pediu pra nascer.

Após o incidente, conversei com ele. Claro, ele tirou de letra, é muito maior que isso.

Esta é a minha singela homenagem a um dos pequenos mais grandiosos que conheci e que é A CARA daquilo que conhecemos por coragem!

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