Esta é uma história que tem duas rodas que funcionam como pernas. E seis mãos. Duas de Edilma que empurra a cadeira de seu filho, duas de Luíz que aponta o céu. E as minhas que a recebeu como um presente e, com as pontas dos dedos, desenha na lousa digital uma carona.

Há buracos no chão, existem orifícios que impedem até mesmo a minha caminhada. Vozes xingando o salto preso, buzinas que gritam pedindo passagem, uma mulher que desbrava trânsito e chão em caos para carregar seu menino. Ímpeto, decido ajudar. Para além de mais duas mãos, a conversa é que conduz Edilma a guiar seu filho.

Luíz tem 14 anos, mas com carinha de 7 ou 8. Ele nasceu com deficiência nas pernas, mas isso nunca o impediu de caminhar. O que freiou seus passos foram as ruas. Não só aquelas feitas de concreto, mas também o caminho do descaso. O pequeno grande garoto, andando no seu ritmo de conquista e no desacelerar de São Paulo, caiu. Depois da queda do corpo, a desilusão da justiça.

Edilma, mãe e sabedora de seus direitos, entrou com um processo. Após o acidente, o menino precisou ser operado, utilizar uma cadeira especial. Para completar, a AACD não procedeu de acordo com o quadro clínico de Luíz, mas as surpresas não pararam por aí. Ali, onde a justiça tem de permanecer vendada para que a balança seja equílibrio, a voz do desprezo não decidiu se calar:

“O juiz falou assim: Por qual motivo a senhora quer entrar contra o Estado? O seu filho já não andava mesmo, não perca tempo.”

E Edilma não perdeu. Processou o meritíssimo.

Todos os dias, diplomas são confeccionados para legitimar juramentos. Todos os anos, milhares de médicos, advogados e tantos outros profissionais prometem usar de seus conhecimentos para fazer justiça, salvar vidas e oferecer o melhor para uma sociedade. Aqui, não falo de títulos ou instituições. Falo de pessoas que estão de ambos os lados, cansadas por ritmos de trabalho e por um mundo desacreditado. Dispersas por rotinas e entediadas com a quantidade de tarefas que nem imaginavam que seu brilhante “Dr.” em frente ao nome lhe proporcionaria.

Falo de seres humanos que perderam sua essência, que se esqueceram de sua função social, do valor e da riqueza que é fazer a diferença a partir de uma oportunidade que tiveram. Nada tem a ver com dom. Falo também de milhares de Luíz, Edilma, Gilberto, Marias, Clarices condenados não por uma deficiência, mas pela indiferença, por ruas e pensamentos tortos.

Um avião sobrevoa o céu de Moema. As mãos de Luíz acompanham a trajetória branca que como giz risca um limite.

– Nathalia, você já andou em um destes?
– Já sim.
– Deve ser incrível voar né?
– Mas você não precisa estar em um avião para conseguir voar, certo?
– CERTO!!!

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