“Deve ter chocolate, farinha, ovos… Normal. Todo bolo tem isso, mas… A massa é diferente e o chocolate sem leite condensado, me parece. Nunca vou conseguir chegar neste ponto, pois deve haver algum segredo. Não sei.”

Nenhum livro de receitas, nem o do maior patissier seria capaz de trazer aquele sabor de volta. Uma receita normal de bolo de chocolate. O segredo? Ela tem o sabor de uma infância feliz, a saudade de alguém que caiu no mundo e desapareceu… Mas não foi apagada de seu coração.

Num domingo nublado de Janeiro, o gosto foi encontrado. Não havia pretensão de procurá-lo. Ele surgiu, talvez pra trazer esta história de volta. Foi na lanchonete da Cidade, num doce chamado “bolo de vó”. A menina, no auge de seus 25 anos, tem a estranha mania de fechar os olhos pra sentir a vida. Em meio à lanchonete agitada, ela o fez. “Tem gosto do bolo da Lúcia. Achei!E ninguém mais tira este sabor de mim!”. Ela não pediu a receita. Foi embora sem o modo de fazer, mas sabia bem o que fazer com cada ingediente que provou.

Lúcia, a dona do bolo mágico, veio cedo de Minas Gerais para São Paulo. Seus cachinhos no cabelo curto denunciavam seus 17 e poucos anos. Quando completou 18, foi trabalhar na casa da menina sem saber que não apenas uma passagem ali teria, mas uma história em sua homenagem.

Além do bolo, ela deixou pra pequena a paixão pela Roxette. No auge dos seus 8 anos, ao invés de Sandy e estas coisas, era um belo “It must have been love!!!!!!” que ela cantarolava no espelho enquanto Lúcia, com a camiseta da dupla, limpava a casa. Um história tipo de Adriana Calcanhotto se apaixonando por “Devolva-me”.

Amigas. Assim elas eram. A mineirinha tinha um elo maior com a garota que a própria babá. Era ela quem separava duas cadeiras de praia, colocava no quintal, geralmente às 21h, depois de vestir a menina com roupas que a protegessem da noite. Aí, Lúcia preparava um chá, bolachas de água e sal com manteiga e ensinava a pequena a olhar o céu da cidade, da mesma forma que ela foi ensinada na Roça. E aquilo ali… AHHHH! Não tinha preço!
Assim como quando a Lúcia quis mudar de seu quarto para dormir na adega da casa (?????). E ali, ela construíu um castelo e a sardentinha adorava fica lá. O lugar onde assistiu as Olimpíadas, na mesma época em que tinha aulas de Ginástica Olímipica. E a Lúcia falava “Um dia, é você quem vai voar pro mundo inteiro ver”.

O Primeiro jogo do bicho, delito perigoso pra quem se tem 8 anos. Elas cometeram juntas. E a menina ganhou 10x mais que sua idade e gastou tudo em doce, figurinha, seus tesouros.

Cresceram juntas. Os pais da menina aconselharam Lúcia a voltar para a escola e, assim ela o fez. Ela e a loirinha, em colégios diferentes, eram separadas por apenas duas séries. Uma ajudava a outra na lição, enquanto ouviam músicas. Nas férias? Era o período do bolo mágico. Enquanto ele assava, Lúcia limpava a cozinha e a menina assistia à Sessão da Tarde com água na boca… Memórias que 17 anos depois ainda a fazem salivar.

Depois de um tempo, Lúcia casou e foi embora. Tudo o que a guria sabe, é que ela já é mãe. Mas sempre que lembra da Lúcia, ainda tem uma receita de infância feliz, Roxette e, agora, um bolo descoberto.

P.S.: Lúcia, eu tenho de confessar que sempre fui um desastre em Ginástica Olímpica e que eu, até hoje, nem sei “virar estrela”. Mas, depois que eu descobri o bolo, me equilibrei na corda da saudade e fiz pra você esta nossa história.

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