A iGualdade também pode vir com a tecnologia, e por quê não? Nos preocupamos demais com a banalização das redes sociais, com o universo touch, com a frieza de um email, mas dificilmente, pensamos em como transitar pelo mundo sensível e digital pode ser saudável e humano. Aliás, esta história que chegou a mim fala sobre isso.

Uma oficina simples de consertos de eletrônicos. Quem passa por ela não imagina que o conteúdo é muito mais iMportante que esta capa. E na lojinha do Ramon, um cliente fiel. Por um lado é bom, mas por outro, ou o serviço não está lá perfeito ou aquele computador não tenha mais jeito.

O nome dele é Marcelo. O garoto tem uns 14, 16, 22 anos, Ramon não Sabe. É complicado dizer, pois é portador de algo que o faz especial. O dono da assistência só não sabia que esta preciosidade era para além de uma doença. O menino fala meio enrolado, mas é fácil saber o que ele está fazendo ali. Novamente, sua antiga máquina que na era do “i” insiste em chamar de computador, não está boa.

Já virou missa. Religiosamente, Marcelo aparece por lá para mostrar mais algum defeito. O pessoal não reclama, vai direto ver o que que aquela bugiganga tem de novo. Tem dias que ela realmente pifa. Em outros, acham que é alguma cisma do menino. Mas aquilo, como desafio, não sai da cabeça de Ramon. É um misto de pena por um troço tão velho nas mãos do garoto. Pelo que percebe, acredita que aquela seja a única ponte do guri com o mundo e, sinceramente, é muita sacanagem aquilo não tomar jeito.

– Thabata, lembra do menino do computador quebrado?
– Huhum.
– Então, eu tava pensando. Acho que vou falar pra galera me ajudar e a gente monta um computador novo pra ele. Coitado, aquela merda nunca funciona direito!
– Ahahahaha. Cê tá brincando, né?
– Hã?
– Cara, vocês ainda não perceberam? O computador até pode ser uma droga, mas é ele quem arranja os problemas!
– Como assim?
– Ele arruma estes problemas, pois vocês são os únicos amigos que ele tem. Se vocês consertarem este computador, ele não vai ter motivos pra voltar na loja e talvez não tenha mais com quem conversar.

Como o Ramon nunca sacou uma coisa destas? Será que a irmã dele tem razão?

No dia seguinte, Ramon não desistiu de montar o novo computador do garoto, não. Mas, isso terá um preço. Ficou sabendo que Marcelo tem habilidades com pintura de paredes. Tudo bem, até que a assistência tem lá uma corzinha, mas ele pensou que o menino poderia melhorar aquilo ali. E ele fez.

Marcelo pintava com a facilidade de quem colore o Toy Story no iPad. E, com religiosidade, preparava o café pra galera. A assistência começou a ter outro clima. Está mais alegre, colorida e todo mundo feliz. E, por incrível que pareça, o computador novo funciona que é uma maravilha.

Mas, ao contrário das iClouds e diamantes, as paredes não são eternas. E o pessoal, pensou, pensou. Que tal ter uma pessoa exclusiva para retirar e levar os computadores? #Todosaplaude. Mas, pra isso tem que rolar um uniforme que ainda ninguém usa e um crachá básico. Na velocidade da luz, tudo está providenciado. Agora, o encarregado Marcelo visitaria as casas das pessoas coduzindo suas máquinas para a lojinha do Ramon. Percebem que o celular do garoto não poderia ser usado para qualquer comunicação. Está velho, gasto, mas o menino ama seu “PEPUBAR”. Sem problemas, Ramon providencia outro e #Todosfeliz.

O Tempo passa e a Thabata decide fazer uma surpresa para os meninos. Quando chega, mal reconhece o lugar. Organizado, com pintura nova, funcionários uniformizados e felizes. Mal acredita no que vê. Dos fundos, surge Marcelo que trouxe o café para saudar os clientes, enquanto espera a tinta secar. Descobriu-se pintor de quadros e, entre uma entrega e retirada e outra, faz as honras da casa.

Ramon surge sorridente. Está mais leve, com o seu lugarzinho de vento em polpa. Pergunta se a irmã reconhece Marcelo. Ela diz que sim e não para por aí. Consegue perceber que na simplicidade, em meio a tantas máquinas, um mundo ali foi transformado. E com certeza, não foi só o de Marcelo.

Ninguém teve a noção clara do que seria iNclusão Social. De acordo com todos, fizeram para ajudar, mas descobriram que foi Marcelo quem transformou tudo aquilo lá.

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