Quando eu estava arrumando minhas malas para desembarcar no Velho Continente, várias pessoas me pediram um souvernir: História. Bem, nem sempre eu planejo uma história. Elas simplesmente acontecem. Mas, no meu caderninho de programação, anotei o pedido. Eu só não sabia que a contação seria sobre mim. Um dia, um terminal, meu momento Tom Hanks, London, Pessoas, 2 vôos cancelados e uma passagem não programada à Amsterdam.

Na noite anterior, mal dormi. O vôo programado para as sete da manhã, o último dia com meu amigo, uma cervejinha e já estava na hora de acordar. Pela manhã, o táxi chegou e acabamos por dormir no caminho. Nem sabia ao certo o meu nome, mas a rotina de check-in, raio-x e “Sim, sou brasileira” já estava impregnada em mim.

A despedida por dias incríveis em Londres e lá fui eu, colocar meus batons no saquinho plástico para não serem considerados armas brancas. Naquele dia, os vôos pareciam peças de um efeito dominó: Cancelado o flight à Berna, Amsterdam, Frankfurt, Berlin e… O DE NANTES!
Imediatamente, desci, recuperei minha bagagem e não encontrei mais meu amigo. A orientação era ir até o balcão da Air France e esperar as providências. Eu só chegaria à França às 18h.

E no país do Croissant, às 11 da manhã, minha amiga estaria me esperando. Eu precisava fazer uma ligação. Na Air France, expliquei a minha situação: Eu viajava sozinha. Imediatamente, me emprestaram um telefone no aeroporto e nada! Nenhuma ligação era concluída e o desespero começou a tomar conta de mim. A atendente decidiu chamar um rapaz que falasse espanhol, para que eu me sentisse mais confortável conversando com alguém em minha língua. Mas tive de revelar que no Brasil a gente fala português.

Ivan chegou, fez com que eu explicasse tudo o que eu havia dito em inglês em espanhol. Ficou ao meu lado, tentamos ligar e nada. Foi quando ele sacou de seu cinto de segurança do London City a arma da salvação. Ele estava me emprestando seu celular. Consegui falar com a Priscila, estava mais calma. Mas.. o veredicto: Você deverá permanecer no aeroporto até a hora do embarque.

Queridos leitores, façam as contas. Isso aconteceu às 6 da manhã. Eu teria 12 horas de puro tédio em um aeroporto minúsculo e sem despachar minha mala. Mas, o que seria um pesadelo, se revelou nesta que é a minha história. Ali, eu me transformava na “Brasileirinha que estava viajando sozinha”. Virei um mito. Por onde eu fosse, todo mundo sabia a minha história. As pessoas me paravam para saber se eu estava bem, precisava de alguma coisa. Os dirigentes do London city falavam “você não está sozinha. Aqui todos nós estamos com você!” Eu era praticamnete um Tom Hanks em “O Terminal”. A Air France não me deu nenhum tipo de suporte. E lá estava eu, custeando meu café, meu almoço, minhas horas.

Na hora que decidi tomar o café da manhã, eis que surge MoMo, o argelino Mouhamed. Ele, obviamente, sabia da história da brasileirinha Tom Hanks! Então, perguntou se eu era de São Paulo. Me surpreendi. Gente, a boca pequena é uma coisa neste aeroporto. Geralmente quando você fala que é brasileiro na Europa, eles falam: “Maracanã, Cristo”. Aí, você tem de explicar que o Brasil é grande e você mora em outro lugar. Mas, os paulistanos gastam muito por lá, então são queridos e conhecidos como “Obrigado”.

Momo perguntou se eu conhecia seu país. Eu disse que sim, falei dos momentos argelinos de Simone e Sartre e ele não entendeu nada. Foi então que usei da técnica que detesto que usam em meu país. Disse que conhecia o Zidane. E ele foi todo sorrisos, me preparou café e conversou comigo. Assim como Ivan, pediu para que eu ficasse por ali para que eles soubessem se estava tudo bem.

Peguei meu café e, pela segunda vez, subi até a moça dos “saquinhos de armas brancas” para tentar despachar minhas malas e ela novamente, com seu estilo Whoopi Goldberg falava pra mim “Go Home! É impossível você ainda estar aqui.”. Cansada até o talo eu disse que estava tentando, mas o tempo não ajudava muito. Desci novamente as escadas com minha bagagem e decidi fazer aquilo que toda mulher ama para se acalmar: Compras. Fui à uma lojinha, comprei chás, praguejei contra os preços absurdos que pagamos em livros de gastronomia no Brasil, disse para a atendente que eu estava bem, obrigada, e que não aceitaria de graça o chocolate. Nesta altura, todo mundo me presenteava.

Meio cansada, me sentei ao lado de um judeu ortodoxo que também teve seu vôo à Suíça cancelado. A oração que ele fazia funcionou para mim como uma canção de ninar. Eu dormia e acordava agarrada às minhas malas. Mas acordei de vez com outro presente: Uma revista mega cara de decoração. Uma outra viajante acabou por comprá-la. Estava embarcando e decidiu me dar de presente. Eu aceitei e passei parte de minhas horas ali viajando por entre cozinhas dos sonhos.

Hora do almoço. Conheci Rita, a polonesa simpática e linda que prometeu que prepararia o melhor almoço da minha vida. E ela realmente fez o melhor sanduíche de brie com bacon que comi. Andei um pouco mais, conversava com outras pessoas e todas me diziam : Parabéns, você é muito corajosa. Eu realmente acredito nisso, visto que moro em São Paulo e estudei perto da Cracolândia. Mas confesso que estar sozinha em outro lugar é um pouco triste.

A senhora francesa que junto comigo perdera o vôo tentava me consolar quando eu dizia “Preciso chegar à Paris”. Eu disse que já havia perdido a minha ida à Versailles e que isso me entristecia tanto. Foi quando que com seu sorriso radiante e lindos olhos azuis ela me disse para ficar calma. Não perdi Versailles, eu simplesmente só ganhei uma razão para em breve voltar à Paris. E eu concordei.

Antes de fazer o segundo check-in do dia, Momo apareceu com um copo de café especial, presente seu e de Rita pela minha partida. Achei fofo. Novamente, subi, despachei as malas, me despedi da amiga-dos-saquinhos de-armas-brancas e estava pronta pra embarcar quando li no painel que meu segundo vôo fora cancelado. Aí, rodei a baiana.

Lá fui eu recuperar malas e dar piti na Air France. De uma forma forte, falei do horror que foi a falta de suporte da empresa, como este era o segundo vôo do dia cancelado e que eu não ficaria no aeroporto e nem pagaria um hotel. Eu teria de estar na França naquela noite. Depois do meu ziriguidum, me disseram: Você está pronta para correr?

PAUSA!

Querido leitor, você imagina o que se passou pela minha cabeça, não? Um retorno forçado ao Brasil e um tchauzinho de vez à Paris e Berlim. Mas me mantive firme e quis saber a respeito. Eu tinha 20 minutos para embarcar para a Holanda, a fim de fazer uma conexão à Nantes.

Corri tanto por aquele aeroporto que fiz inveja aos maratonistas. Não me pergunte de onde surgiu tanto preparo físico. Talvez, este seja o combustível do sonho de se chegar à Paris. No avião, me lembrei que não havia avisado minha amiga Priscila. Mas aí surgiu uma mulher que decidiu usar de seu iPhone para mandar uma mensagem à minha amiga. Eu amo a tecnologia.

Cheguei em Amsterdam e quase fui barrada. Queriam uma carta de permanência no país. Mas expliquei que era só uma conexão e eles começaram a me sacanear, pois acharam que eu era francesa. Neste momento, um sangue latino brotou em minhas veias e eu lembrei ao guarda fanfarrão que venho do Brasil, então que falasse inglês comigo. Carimbado o passaporte, derramaram tudo de minha bolsa para averiguação. Por fim, e puta da vida, consegui embarcar. No avião, me perguntaram se era a minha primeira vez na Holanda. Disse que sim e que nem havia programado.

Por fim, desci em Nantes, encontro o Dani, marido da Priscila. Depois de toda a aventura, só restava buscar minha mala. Quando chegamos à esteira, o aviso: As malas ficaram na Holanda. A Air France me presenteou com uma camiseta e uma necessaire repleta de desodorantes, pastas, escovas de dentes e demaquilantes. Pediram para que eu aguardasse até a manhã seguinte. Voltei para meus amigos, combinei com eles que a mala chegando ao não, iria à Paris na manhã seguinte. Mas, o propósito disso tudo eu só encontraria lá.

Continua…

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