Continuação

Nada na vida é fruto da perfeição. Claro que alguma coisa deveria acontecer nesta viagem, até porque, não seria uma das minhas viagens. E foi isso que eu estava pensando, enquanto tomava meu banho já descansada da aventura do dia anterior.

Abri meu caderno de programação, aquele que tinha escrito “Uma história como lembrança” e ri. Ali, eu teria de reorganizar meu tour por Paris, abrir mão de algumas coisas. Eu apenas tinha de chegar lá. Já estava conformada quanto a receber minha bagagem apenas em Janeiro. O que eu ainda tinha na mala que ficou em Nantes dava para seguir meu roteiro. Bendita Santa protetora dos viajantes que proporcionou a brilhante ideia de lavarmos as roupas durante nossa trip. Ainda bem que a Pri me ajudou com isso.

Ajeitada minha bagagem, lembrei de colocar os presentes da Air France. Quem sabe aquela camiseta branca me serviria de alguma coisa? E aquelas coisas todas de higiene. Só não sei em quê me ajudaria aquele creme de barbear, sei lá. Daria de presente para meu pai.

Ajeitado tudo, Dani ligou. Minha mala havia chegado! Que emoção em rever minhas coisas! Prontamente, partimos para o aeroporto, recuperamos a mala e seguimos para a estação de trem. Ali mesmo, Pri e eu abrimos as bagagens e preparamos a outra mala. Pronto! Eu estava completa para encontrar a Cidade luz.

A despedida, uma viagem de trem e, em duas horas, eu estaria lá, olhando a torre enquanto o dia se despedia e a noite me brindava com luzes. Quando o trem parou em Paris, perguntei ao senhor ao lado se realmente eu estava lá. Ele confirmou e eu comecei a chorar.

Ali, era o meu sonho desde a infância. E, se eu havia demorado 25 anos pra pisar naquele lugar, ninguém nem imaginava a loucura que foi o dia anterior. Era o meu presente da vida. Na saída, um francês elegantérrimo me ajudou com as malas, uma argelina me ajudou a empurrá-las até a saída e um turco me conduziu até o hostel em seu táxi. E me cobrou 2 euros para me ajudar a tirar as bagagens do porta-malas. (Sacanagem, né?)

Quando adentrei o Le Bastille, a atendente olhou para mim, para minhas coisas e perguntou se eu estava sozinha. Confirmei. Depois disso, fez questão de enfatizar que era ridículo eu, só, com aquelas duas malas. Ah, a elegância dos parisienses me contagiou. Não deixei barato e, sorrindo, educadamente retruquei:

– Nossa, e como é ridícula a sua gentileza, não?

Ela ficou muito envergonhada e queria se desculpar de alguma forma, mas me mantive firme. Larguei minhas coisas e a noite me convidava. Eu iria conhecer a torre.

Adentrei por entre o fácil metrô parisiense, me perdi por entre a música dos artistas que ali estavam e me encontrei em cada linha e pelo pulsar do meu coração. E ela estava lá. Altiva, iluminada, sorrindo pra mim como que um “Bem-vinda, Nathalia! O seu sonho agora é real”. E eu chorava, chorava e sorria e tirava fotos. E estava sozinha. Nestas horas, você quer puxar alguém muito íntimo e pular com esta pessoa, enfatizando que maravilha era aquilo tudo. Mas meu telefone não funcionava na França e tive a consciência de que, algumas coisas na vida são muito pessoais. E aquela era uma delas.

Não conseguia ir embora, eu virava para partir e voltava pra olhar mais um pouquinho. Parti para a Champs- Élysée. E ali, uma multidão esperava alguma coisa. Achei que, pela concentração de pessoas, algum acidente tinha acontecido, mas não. Em poucos minutos, a avenida ficou toda iluminada. Era a inauguração das luzes de Natal e, pasmem, meus queridos! Quem inaugurou foi a Audrey Tautou, a Amélie! E foi muita emoção para meu coração.

E assim pude conhecer a Bastilha e lembrar das aulas do professor Frank, contemplar o Angeline, provar a gastronomia parisiense, ouvir um senhorzinho tocar “La vie en Rose”, em plena Sacré- Coeur. Esta era a minha Paris, apesar de esperar mais dela.

E já estava quase na hora de partir, quando, após o check-out, pedi para guardar minhas malas. O caminho me foi mostrado. Um porão com pequeninas escadas. E eu com uma mala de 23kg e outra de 20kg. Pedi por ajuda, mas ninguém me ajudou. E lá fui eu, puta da vida e com um grande desafio. Ou eu colocaria as malas ali ou eu não veria o sorriso de Monalisa. Fui muito corajosa, conheci o Louvre, outros lugares e retornei. No meu retorno, todos se negaram a me ajudar. Foi quando eu me nutri de uma força que sabe Deus de onde tirei e fui subir minhas malas.

Degrau por degrau, uma por uma, sozinha. E quando eu subi a segunda e mais pesada mala, encostei ainda sozinha naquele porão, suando, e comecei a chorar quando vi minhas mãos quase sangrando devido ao esforço que fiz. Ali, eu estava completamente só, machucada, hostilizada, mas… eu não desistiria. Limpei as minhas lágrimas e completei o meu trajeto.

Quando cheguei, limpei meu suor e virei para o parisiense que me hostilizara e disse: Eu fiz sozinha!

Quando sentei para recobrar minhas forças, um garoto do Leste europeu olhava pra mim e ria, ria. Fiquei puta:

_ Escuta aqui! Você tá rindo de quê? Você achou que eu não conseguiria? Tudo porque vocês acham que mulher no meu país é puta, não é? Mulher no meu país é muito forte!

Pausa!

Eu sei que a louca fui eu por estar com duas malas mega pesadas, mas ninguém me ajudar foi terrível!

Continua

Ele virou-se pra mim:

– Eu estou rindo de desespero.

E aí, lá fui eu conversar com o garoto tcheco que teve todas as suas coisas roubadas. Levaram cartões, identidade, passaporte, dinheiro. ABSOLUTAMENTE TUDO! E ele estava lá, pois a embaixada da República Tcheca estava custeando sua hospedagem, mas nem a grana para comer ele tinha.

Me bateu uma dor tão forte no peito. Se eu me sentia sozinha porque minhas mãos estavam sangrando já que ninguém quis me ajudar, o que diria este moço? Literalmente sem nada. Mas como ajudá-lo? Como saber que ele não estava me enganando? Bastou olhar para os olhos azuis-eslavos dele.

E aí, tudo fez sentido. Naquela hora, eu entendi porque tive que percorrer milhas e milhas para chegar em outro dia, porque ninguém me ajudou, porque as coisas aconteceram desta forma. Me lembrei de Will Eisner e seus “Pequenos Milagres”. Me lembrei da camiseta branca da Air France, da Necessaire completa, do meu estoque de chocolates e do creme de barbear. Me lembrei de que talvez, a história que eu teria de contar não era a minha, nem a dele. Eu deveria contar a história de que, em um mundo como o nosso, de hostilidades e ganância, ainda é possível encontrar humanidade.

Olhei para o garoto e disse que eu não gostaria que ele se ofendesse, mas eu queria contar uma rápida história que vivi naquela semana. Contei e cheguei na parte em que eu tinha algumas coisas que ganhei e, até aquele momento, eu não sabia para que elas serviam. E que eu havia descoberto.

“Mas você vai abrir as suas malas?”

Joguei minhas malas no chão e comecei a procurar a camiseta, a necessaire, me desfazer de alguns chocolates e ver o que eu mais tinha trazido por pura cobiça, mas que seria necessário a ele. E eu entreguei meu primeiro presente de natal.

Quando olhei, ele estava chorando. Me explicou que não era de tristeza, mas de alegria. Que era impossível alguém fazer aquilo por outra pessoa e mais ainda, que Paris tinha sido um terror, uma descrença para ele… até agora. Foi quando eu expliquei que de onde eu venho, as pessoas são assim. Que isso era um pouco do Brasil e que, em Londres, quando eu estava desamparada, muita gente me ajudou. E que, quando ele tivesse uma oportunidade, fizesse o mesmo.

Neste momento, seu sorriso era de alegria. E esquecemos as nossas dores. Mas era chegada a hora de partir. Como estava escrito na recepção que eles poderiam chamar um táxi para mim, fui pedir. E, novamente, a resposta que me acompanhou naquele lugar:

– O problema continua sendo seu!

E neste momento, um garoto que eu descobriria que era brasileiro e tinha chegado há poucos minutos, foi tirar satisfações com o recepcionista que manteve sua postura, mesmo depois do “Então, vai tomar no cu”! que o tal garoto, Guilherme, dirigiu a ele.

O Garoto Tcheco abriu as portas, Guilherme foi empurrando a mala mais pesada, eu a outra. E, pelas ruas de Paris, procuramos um táxi que, finalmente me conduziria ao aeroporto. Em pouco tempo, eu estaria na Alemanha…

Esta foi a história mais bonita que eu pude trazer para vocês. Ela fala de gente, de humanidade, de pessoas que hostilizam e outras que abraçam. São estes pequenos milagres que fazem a nossa vida valer a pena. Este é o meu presente de Natal.

Dedico esta vivência à Priscila, Daniel, Manah Manah, Ivan, Rita, Momo, à equipe do London City, à moça que me emprestou seu iPhone, ao garoto Tcheco de olhos eslavos, ao Guilherme que mal me conhecia e me ajudou, trazendo o aconchego do Brasil.

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