Da plateia, um palco lotado de vida e cadeiras. Objeto grosseiro se comparado a uma dança. Mas quem se importa? A leveza, fruto que transcende corpos, é capaz de transformar. As luzes coloridas se apagam e uma atmosfera amena, eu diria até que de suspense, se instaura naquele lugar que será berço da delicadeza.

No centro, ainda tímida, uma aspirante à bailarina aparece. Ela e sua cadeira, o espetáculo e seu mundo. E com jeito suave, seus braços vão acariciando o ESTAR, as pernas ensaiam os primeiros passos de SER. Ali, ela não é a garota da favela. Andrea se tornou do corpo de baile da transformação.

Naquele momento em que a vi tão entregue, meus olhos brilharam e eu fiz uma oração. Desejei que qualquer anjo da arte, daqueles que inspiram os gênios e especiais, recolhesse cada movimento daqueles e os espalhasse para o mundo como poção de mudança. Era um pedido de mãe emprestada, de educadora que sabe o poder destes passos e de cada um daqueles aplausos.

Andrea foi uma de minhas crianças do Curumim entre os anos de 2007 e 2008. Seu sonho? Ser bailarina. No dia contado, ela se apresentou no teatro do SESC SAnto André, em um espetáculo final das atividades de Expressão Corporal. Cresceu como muitas daquelas crianças, em meio às rusticas madeiras que formavam casas, à terra batida que desmoronava com cada pranto de natureza. E foi numa destas chuvas que impedem o nosso caminhar que eu a encontrei.

Mulher feita. Mal a reconheci se não fossem aqueles olhos amendoados e vivos, cheios de esperança. A menina que hoje já ultrapassa a minha tímida altura não foi descoberta por nenhum grande corpo de baile internacional e nem se apresenta na Rússia. Ela hoje dança com números e sua coreografia tem passos bem marcados. Escola, estágio, curso final. A garota da Tamarutaca é quase uma técnica em Engenharia Mecatrônica, rumo à Universidade e à conquista de seu sonho.

E nesta luta diária de SER e TER, a vida tem um programa todo especial quando nos convida para dançar. Com o tempo, acumulamos quedas, aplausos, seda em meio à toda uma construção que vive à margem.

A seda é cria daquilo que brota de dentro, é razão de um trabalho persistente e delicado. A seda é ouro, pois traz dentro de si a paciência e a determinação. Seda delicada que transforma qualquer lugar, que abraça uma dança, que veste um corpo nu dando-lhe forma. A seda em meio aos escombros é delicadeza.

Anúncios