“Oh! São José, cuja proteção é tão grande, tão forte, tão imediata diante do trono de Deus, coloco em vossas mãos todos os meus interesses e desejos.”

Não. Não foi esta a minha oração ao santo. O dia em que eu rezei para São José foi exatamente isso:

– São José, se você existe, perdoa este garoto!

Não sou católica apostólica romana. Não sou do Kardec e nem acredito em orixás. Eu só acedito em Deus mesmo, sem levantar bandeiras, sem ostentar a estrela de Davi que deu cria à minha família. Mas neste dia, eu pequei, confesso.

Tudo começou com inofensivas uvas, uma de minhas frutas favoritas. E elas estavam lá, suculentas, doces, tão romanas quanto a idéia que fazemos de Baco descansando em um dia de sol. Mas foi num descuido em que uma questão se fez presente:

– Nathalia! Eu posso tomar este suco de uva?

Era Vítor, um de meus Curumins serelepes e fofos do SESC, preocupado com o suco oferecido no lanche.

– E por quê não?

– E que eu fiz aquela promessa do dia de São José, sabe? Então, por um ano, eu não posso comer nada de uva.

– Olha, São José não vai se importar com um suquinho de uva. Vai, pode tomar.

E foi aí que eu pequei. Pequei e fiquei com aquele peso que só os pecadores genuínos têm. Mas o arrependimento se fez presente. É claro, não foi de imediato. Eu passei uma noite toda me culpando por ter me metido numa promessa que nem minha era e ter sido uma mulher de pouca fé. Sabe como é – assim que eu tentava me abster- aquelas crianças não têm muita coisa pra comer, vivem cheias de privações da vida, cheias de NÃO o tempo todo. Não, isso não tem nada a ver, Nathalia! – o anjinho me soprava no ouvido – A promessa não era sua, o desejo de alcançar a graça não era seu e como você pode agora dizer “Eu respeito todas as religiões”, hein? Pois é. Pedi um auxílio divino e no dia seguinte, chamei Vítor para conversar:

– Vítor, eu queria te falar uma coisa.

Ele, desolado com seu pecado que me teve como cúmplice e cabeça do caso.

– Eu sei, você vai falar da promessa. Deixa pra lá, ela não vai mais dar certo. Eu tomei o suco…

– Não, Vítor! A culpa foi toda minha, acredite. Mas olha, eu conheço São José, sabe? E ele é um Santo muito legal. Tenho certeza de que se a gente pedir desculpas de todo o nosso coração, ele vai nos perdoar e melhor ainda, acreditar que você vai seguir em frente com aquilo que deseja. Vamos tentar?

E foi então que ele e eu ficamos próximos ao teatro do SESC Santo André, sentadinhos, unindo nossas mãos em prece e entoando o cântico do perdão:

– Querido São José, sabemos que o Vítor tomou o suco de uva por culpa minha, mas agora viemos aqui pedir desculpas. Sabemos que o senhor é legal e vai nos dar esta segunda chance. Não haverá uvas durante um ano para que a promessa, seja lá qual ela for, seja alcançada. Obrigada e amém!

Vítor, mega feliz, foi recomeçar sua vida, enquanto eu buscava um sentido para tudo isso:

– São José, se você realmente existe, perdoe este garoto. A culpa foi minha! Dê a ele uma segunda chance para cumprir esta promessa.

E foi então que eu realmente soube que a minha fé não é melhor do que a de ninguém, muito menos do que a de uma criança. Se eu deixaria meu filho se privar de algo que gosta por um ano? Não, mas confesso que depois disso, fiz uma promessinha para Deus. Agora, como provação ou não, quase sempre tem alguma coisa de uva no lanche, mas eu olho para ele, ele para mim e juntos combatemos a vontade e mantemos nossa palavra.

Viver com fé e de fé. É algo sublime.

Anúncios