“Sou louco porque no mundo em que vivo ninguém merece minha lucidez”

Não vi esta frase de Marley pixada em muro, cantada em música ou gritada em poesia. Percebi a reflexão em formato de gente. Não estive em outro país, nem visistei galáxias distantes. Estava na Avenida Pavão, em plena Moema.

E caminhando, e desviando, e embaralhando tantos sentimentos e aprendizados, deixei de olhar para dentro de mim e me visualizei ali, parada, não acreditando em minhas projeções astrais e nem na simetria do tempo.

E ele estava lá, de pé no chão naquele dia frio. Barba por fazer, roupas sujas e rasgadas, tudo fora do lugar. E tinha casa dentro de um saco de lixo. Não era um bicho-homem, um minotauro urbano. Era alguém em sua plena lucidez que pelo buraco da fechadura encontrou divã. Era um mendigo conversando com uma câmera de circuito interno de um prédio elegante, de um bairro refinado, pedindo para ser escutado.

Parei, talvez até tenha esboçado um sorriso perplexo. E aquilo tão óbvio nunca tinha passado pela minha cabeça. Se podem me vigiar, têm que aprender a me escutar. E ele conversava, explicava, contava o que sentia, sua rotina diária, como está sufocado, como não é fácil cuidar dos filhos, como não acha justo certas coisas, como caiu e levantou tantas vezes.

Foi o que eu imaginei, o que eu talvez estivesse ouvindo enquanto observava seus gestos de lamento, suas mãos italianas ao vento.

Na verdade, não ouvi uma só palavra, não me achei no direito, afinal, este tipo de sessão é muito íntima, sigilosa. Quando passei, ele interrompeu sua confissão. Mais adiante, continuou falando, falando, falando…

Penso se alguém realmente estava ouvindo. Torço para que ninguém estivesse rindo. Foi sério, foi a atitude mais sensata que presenciei nestes últimos tempos. Um divã particular no meio da rua, alguém, até que fosse para ficar perplexo para ouvir. Muita, muita lucidez.

 

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