“És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo”

O Tempo. Senhor da cura. O maior contador de histórias da vida da gente. E ele, que adiou um encontro de anos, fez esta história nascer.

Ela chegou. E eu, ali atada diante dos fatos, a reconheci. Não me perguntem como. Naquele ambiente branco, de sirenes, anjos e mortes, nasceu uma vida. A melhor amiga de minha mãe fora visitá-la. O tempo já havia sido gasto, bloqueado as portas do quarto. Olhou pra mim sorrindo, iluminada. A vida toda, ouvi de minha mãe o quanto eu e Cida éramos parecidas, como nossas atitudes eram exatas, nossa determinação imbatível e nosso gosto peculiar, “Ronnievonesco”.

Assim, de repente, não consegui detectar um espelho meu. Foi muito rápido. Ela chegou tarde demais e as visitas estavam já proibidas. Prometeu voltar no dia seguinte. Parou um instante, olhou para mim, passou sua mão em meu rosto, sorriu. A lembrança que tinha dela pessoalmente era de uma mulher muito mais imponente, com cabelos pretos e não tão claros. Mas gostava dela, afinal, sua pessoa jamais saíra do coração e das palavras de Maria Elisa.

Depois da despedida, resolvi voltar para casa. No dia 14 de Julho, Maria Elisa Figueiredo Belisse Triveloni, minha mãe, partiu deixando muitas saudades e uma força pra mim que até agora me espanto. Mas não foi só isso.

Cida voltara no dia seguinte. Sua amiga de infância já havia sido removida para a UTI do Hospital Bosque da Saúde para ali ser curada e subir ao céu, afim de realizar uma festa colorida…

À noite, enquanto nos reuníamos para nos despedir de minha mãe, recebi uma carta. Ainda sem entender seu próposito, eu a guardei. Pouca gente sabe o quanto gosto de receber estas preciosidades. E aquela era. No mesmo instante, um sopro de vida:

“Infelizmente, eu cheguei junto com a carta.”

Era Cida. Disse-me que escrevera um presente. Ela, que conheceu minha mãe ainda bem pequena, era guardiã de lembranças que eu não possuía. Contou ali a história que durante tanto tempo busquei para homenagear minha pequena. Ainda criança, a ruivinha de sardas e olhos verdes, tinha uma caixinha. Dentro dela, uma calendário com três crianças clarinhas. Ali, revelou que seu grande sonho era ter uma família grande com filhos iguais aqueles. Quis a vida que assim fosse feito.

Com os olhos brilhantes, soube ali o que eu escreveria aqui, só que depois de um pedido:

“Eu gostaria de ser sua amiga”.

No final da carta, um telefone. Estive me recuperando nos dias que se seguiram. Lendo, relendo e levando a vida. Resolvi ligar e dar continuidade àquela amizade que agora me tinha como uma de suas pontas.

Este não é enredo de nenhuma novela, apesar de muitas vezes a arte imitar a vida. É um dos presentes que recebi do destino para fazer ainda mais eterna a minha Elisa.

“A ela, a única Maria do mundo.”

(João Guimarãe Rosa)

Anúncios