Sabia Ela. Dona de encontros e despedidas, responsável pela culpa de quebra de promessas, da concretização do voltar. Ninguém sabe de onde é, quando nasceu, só sabemos que sua missão é partir. E ela veio. Na verdade, já estava ali e, apesar de ser o avesso, vive naquele lugar. Por vezes é bálsamo, por outras desespero. Uma coisa é certa: Sempre será tristeza. Esta é sua sina.

Não devemos culpá-la, até porque naquela obra sobre uma menina que roubava livros, ela confessou sua “humanidade”. Teve pena de levar o garoto, às vezes isso acontece, principalmente quando sua tarefa é de roubar quem ama a vida.

Estava esperando. Permitiu despedidas e lições dolorosas. Foi obstáculo e crescimento. E observou, unindo duas pessoas a quem sua presença não afetava, mas se tornava temerosa.

E no meio de um plantão alucinante, enfrentou. Estava ali para quebrar regras, para humilhar juramentos, para confrontar o passado com o presente, a dolorosa tarefa da medicina engolir o impossível. Dra. Flávia não imaginou que naquele dia teria de passar por isso mais uma vez. Com certeza, quando jurou salvar vidas não imaginava ter de entregá-las em algum momento à Ela.

Fávia Rezende sabia que não havia mais nada a fazer. “Ela” estava ali, pronta para se tornar presente, lhe trazendo o passado à tona. Mas agora seria diferente, iria desmascará-la ou torná-la menos forte. E se vendo naquela situação, naquele dia completando um ano em que a médica era quem estava naquele lugar, mostrou que sua profissão não fazia sentido sem humanidade e isso não fazia menos revoltante falar d´Ela, este sujeito a quem eternamente iremos culpar.

Quando Flávia pediu para que a garota sentasse, como que num ato cirúrgico, costurou a história toda, sentiu-se responsável por destruir castelos, mas por acalentar com palavras. Aos poucos, o papel de mensageira da dor foi dando lugar à luz de quem não estava ali por um diploma. Por um momento, o desespero foi suprimido pela cumplicidade.

Naquele momento, apenas o cabelo loiro da médica a fazia diferente da garota. Tentou explicar clinicamente a situação, mas percebendo que seu jaleco branco não fazia sentido, despiu-se de termos e estetoscópios para tornar pele a realidade.

A médica de estatura mediana assumiu uma altura dos céus, ela foi anjo. Não só quando decidiu ceder uma pera como carinho para a paciente que tivera este como um dos últimos desejos, como quando confessou que naquele dia, há 365 dias atrás, recebeu a mesma notícia, mas não teve quem a entregasse de forma mais amena.

– Como você consegiu?

Tempos depois, a doutora confessou que para este teste de vida, não possuía uma resposta de cura. Flávia não saberia como ensinar alguém a enfrentar aquela a quem ronda esta história sobre o bastismo de “Ela”, não existe prescrição médica para a morte. Se isso existisse, saberia o remédio certo para curar a dor da perda do próprio pai.

Mesmo assim, com um horizonte obscuro definido, quis enfraquecer a morte dando aos últimos momentos da vida daquela mulher a dignidade de morrer sem dor, sem obstruções violentas, sugerindo um tratamento paleativo para que o AMOR que jamais se acabaria com a partida, fosse ainda vida em família.

Então, a médica foi embora, mas ainda era presente naquela situação. Assim, 48 horas depois, sem saber, a médica fora procurar a paciente que lhe cativara, mas com pesar e negando sua origem, a morte, que já não era um pronome pessoal, havia cumprido sua missão.

Estava escrito, porém, de uma certa forma fora modificado. Lidando com a Morte, penso que por vezes Ela sabe o momento exato de vir, mas apenas busca desculpas, seja uma doença, um acidente, um sono de partida. E nós que aqui ficamos, aprenderemos, ainda não sei como – mas procurando uma resposta – como vivê-la de aprendizado. Ainda reconheceremos suas devastações e teremos sempre a lembrança de quem disse um breve “Até logo”. Enquanto isso, que saibamos valorizar pessoas que assumem certas asas que atribuímos apenas aos anjos.

Para Flávia Rezende, uma pessoa especial.

Anúncios