Dos trópicos brota um sol escaldante e a negação do vento. Da multidão uma história, um rosto entre tantos outros. Das minhas mãos, ouvidos e olhos, uma página escondida de alguém que morreu para permanecer vivo.

Um metro e setenta e cinco de pura ofegação, cabelos que já anunciam um vasto passado, óculos para ler o mundo de sua própria Janela… e um terno maior que seu número. Ele tenta se encaixar.

Praguejando contra o mundo e quem o discrimina por ser pobre, Antônio – o alfaiate – escolhe o ponto de ônibus para recuperar as forças e não mais ocultá-las. Os meus ouvidos são as memórias que costura e apurando aquele sotaque temperado de Fado, descubro que nasceu em Angola.

Ali, onde mapas separam vidas e sangue banha vitórias, ele nasceu. Cercado por violência, por bandeiras que se alternavam danto títulos e rédeas à Liberdade, se tornou militar. Viu de tudo um muito, até a fome que devora gente:

“Ali, na falta de comida que não era rara, escolhiam as crianças. Era filho para o próprio sustento. Literalmente”

E Antônio prossegue. Ele me escolheu.

Enquanto aguardo o 323 – Terminal Oeste, agradeço por estar atrasado. Diante de meus olhos a História. Jovem, nos idos de 1975, desembarcou no Brasil. Os olhos escurecem, mas o sorriso permanece o mesmo. Faz questão de se vangloriar de todas as regalias que tinha, de presenciar uma “Revolução” neste país e de ter de se confrontar com “aquela russa miserável” como presidenta. Com repugnância, cita Dilma e discorre sobre o papel terrorista dela, sobre como nosso país era melhor naquele tempo e como nossa vida seria melhor diante da Ditadura – digo, do grande ato “revolucionário”.

Decido não colocar minha opinião, sei que sairei perdendo. Não pelas minha visão libertária, mas porque ele vai insistir em uma ilusão dominadora e opressiva. A primeira ideia que tive de um senhor indefeso desaparece com sua energia obscura. A impressão que tenho é a de que aquelas personagens que me intimidavam na infância se materializaram neste homem.

Meu ônibus chega e me despeço com cautela, ainda oferecendo minha ajuda caso se faça necessária. Vou embora deixando um Homem e seu baú repleto de histórias que me perseguem até hoje. Por vezes nos encontramos, ele agradece meus cumprimentos e segue sua obstinada vida. Penso que ele ainda acredita estar de farda, mas acaba costurando o silêncio junto com seus ternos.

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