Respira…
Deixe os braços relaxados e, devagar, comece a levantá-los. Isso.
Agora, basta se aproximar do outro e, sem pudores, envolva esta pessoa com amor. Abrace e deseje o que há de melhor e que ela seja eterna e feliz e que, se possível, este momento dure para sempre.

Assim se dá um abraço.

A prisão existia, é verdade. Ela só não havia percebido uma coisa: As janelas e as portas estavam abertas. Bastava querer sair.

Onze anos, apenas esta quase dúzia de vida para tanta vida. a perda dos pais ainda muito criança, a vontade de não amar mais ninguém para não sentir a dor da despedida. Os olhos sempre direcionando para disparar seu laser. O objetivo? Magoar para não ser magoada, para tentar se sentir melhor. Não há culpa. Quem nunca se colocou nesta posição? Tem vezes que não é por querer, mas para sobreviver.

E foi num destes momentos em que eu a conheci. Nesta altura, já convivíamos há quase 3 meses, mas aquela barreira, aquela insistência de só me olhar pela janela de sua alma nunca havia nos aproximado. E em uma conversa, num papo sobre o de dentro pra fora, eu empunhei um martelo de esperança e entreguei a ela com apenas uma frase:

– Por quê você não permite ser amada?

E aqueles olhos de jabuticaba se desmancharam em surpresa. A boca tentava dizer alguma coisa que só conseguiu ser dita pelos olhos molhados. As paredes começaram a desmoronar. As janelas e portas e tudo não existia mais. Por um momento, eu sabia que ela estava naquele dia claro, protegendo os olhos da luz que tentava invadí-la e que aquilo poderia ser doloroso. Mas eu não a deixaria sozinha novamente. E naquela confusão e desespero de quando se perde o chão, segurei em suas mãos e pude olhar para ela, não como um obstáculo, mas com seu metro e meio de ainda infância emoldurado pelas tranças que eu achava tão lindas. E me abri.

Despejei sobre aquela criança que se eu ainda estava em pé era porque uma força muito grande me mantinha assim, emanava no meu coração vindo delas. E sem vergonha alguma, confessei o quanto eu precisava deles, dela e que aquilo jamais seria vergonha para ninguém, pois quem vive só sem ser por escolha não vive, mas passa pela vida. Já que tudo estava no chão, nós duas precisavamos reconstruir um amor, uma confiança. Então, segurei o primeiro tijolo da fé:

– A partir de hoje, todos os dias, eu te darei uma dose de um remédio que ando testando.

Olhos ainda mais abertos esperando talvez uma receita.

– Hoje você começa a tomar sua primeira dose de abraço. E nem adianta dizer que não, pois algumas vezes os adultos sabem do que as crianças precisam. Vamos lá, levante-se, é bem fácil. Você só precisa ser corajosa. Prometo que não vai doer.

E assim foi, cada dia um abraço. Nas primeiras vezes, o gosto parecia ser ruim para ela, mas depois, quando eu deixava passar o horário sem conferir a receita, ela me lembrava. Aos poucos, as doses foram aumentando ou simplesmente me pegavam de supresa com aqueles abraços cada vez mais apertados. E até carregando um sorriso.

E os abraços se transformaram em um milagre: A Amizade.

As mãos que já não abraçavam relutantes, agora escreviam cartas com palavras carinhosas, respeitavam mais, empunhavam presentes e me matavam de tanto rir. E juntas fizemos poemas, dançamos forró e brincamos de tirar fotos para registar aquilo que buscamos eternizar.

O efeito da “Terapia do abraço” não se aplica apenas ao paciente, mas ao próprio médico. E aqueles bracinhos me curaram muitas vezes, me estenderam mãos e solidariedade.

– E agora que vou sair do Curumim, como vai ficar nossa vida?

– Ah, não sei. Você pode continuar me atormentando no Facebook, me visitar aqui no SESC, tomar um sorvete. O que acha?

– Tá certo. Ah, só mais uma coisa: Cadê minha terapia do Abraço?

O Ministério da Saúde Adverte: Terapia do abraço opera milagres e cura dores, podendo até amenizar algumas perdas. Os ganhos são incontáveis…

Para K., com todo o meu amor do mundo.

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