No escuro, ajoelhada, numa prece silenciosa, Julia Roberts pedia um caminho para Deus. E em suas verdadeiras lágrimas começou o seu “Comer, rezar e amar”.

Comigo foi diferente. Quer dizer, um pouco diferente. Eu não estava sem um caminho. Eu tinha um, só que tudo o que eu havia planejado foi jogado por terra. Por um momento, até me vi beijar a lona. Mas, apesar de tudo, uma coisa eu não havia perdido: Minha identidade.

Em seis meses, a vida me roubou preciosidades: Minha mãe, segurança, um futuro planejado, uma família perfeita, confiança em quem eu depositei minhas angústias. Percebi que só havia uma saída: Fazer minhas malas o mais rápido possível. Eu fugiria.

“Start spreading the news
I’m leaving today
I want to be a part of it
New York, New York”

Não atravessei o outro lado do mundo, não planejei meditação, coisas gordas na Itália ou me apaixonar perdidamente por um brasileiro. Isso até me pareceia um bom plano, mas eu tinha certeza de uma única coisa: Eu deveria ser minha melhor companhia. Afinal, se eu não me suportasse por 10 dias, quem iria fazê-lo?

Meus sapatos escolhidos não eram vagabundos, delicadamente separei meus Jorge Alex, coloquei o segredo em minha mala, busquei dicas e fiz meu roteiro todo pelo Google Maps. Não tinha como me perder. Para me encontrar, eu estaria no olho do furacão, completamente sozinha, cobrando da vida toda tranquilidade que ela me devia. E fui. Na despedida do aeroporto, um abraço apertado, mas rápido, para que minhas lágrimas fossem ocultadas. E quando entreguei meu cartão de embarque, eu o fiz chorando. Na poltrona do avião, ao lado de um americano que queria que eu o ensinasse a falar suco de laranja em português, me vi Julia Roberts:

“Deus, aqui, agora, nesta decolagem, eu deixo para trás toda a minha dor, todo este peso que para mim tem sido tão grande. Eu quero a Tua leveza. Eu mereço ser feliz”

Pensar em mim, esta foi a primeira coisa que aprendi na terapia. Há tempos tinha esquecido deste algo tão importante.

Quando cheguei naquela NY cheia de frio, algo aquecia meu coração. Talvez fosse a sede e a vontade de ir ao banheiro naquelas 3h de fila da imigração, mas eu sabia que era mais. Chegando ao hotel, depois do check in, deixei minhas malas e meus receios naquele quarto. E me entreguei às luzes.
Uma porção delas, iluminando uma cidade e minha vida. Mas era aquela barulheira deliciosa que acusa que estou em casa, um monte de gente andando, comida de rua, muita música. Aquilo, penso eu, pode ser chamado de pontinha de felicidade.

Era incrivel andar só, sem dar satisfação a ninguém, fazer o que eu quisesse, no horário em que eu achasse adequado, conhecer o que me desse na telha, mas chegar à noite naquele silêncio do quarto dava uma pontinha de solidão. A primeira ligação para casa foi difícil. Peguei meu cartão telefônico com os olhos marejados. Engoli o choro e abri um sorriso. E aí tudo se fez novo.

Aos poucos, fui me acostumando com a vida frenética. Parei de ser politicamente correta e só tinha hora para acordar, não para dormir. Deixei de lado os doces aos finais de semana e comprava para comer tudo o que eu achasse bonito e apetitoso. Dieta? Quem precisa dela quando se está de férias? Parei de ser fresca e me joguei nas comidas de rua. Nachos com cheddar em frente ao MET, um GYRO grego na Madison Square. Se jantei às 17h no Eataly cheia de glamour e me deliciando com arroz negro e escalopes de peixe, às 22h me dei o direito de experimentar um McChicken com coca por U$$ 1.40. Ganhei dois pedidos no Shake Shack, porque erraram minha comanda e acabei distribuindo Milk Shake a quem tinha vontade… E depois sentei no banco da praça, comi minhas batatas fritas, meu hambúrguer de cogumelos e tomei minha limonada com morango sem me esquecer dos cupcakes da Magnólia Bakery e do melhor cookie da minha vida. No Levain Bakery, a vendedora delicou-se com minha resposta sobre se eu havia gostado: Simplesmente nasci para comer isso.

Praticamente me afundei em lágrimas assistindo ao Fantasma da Ópera. Ele mudou todo o meu conceito de musicais, de amor e da entrega de um ator. Com Wicked foi o mesmo. Rodei por grandes museus, tirei fotos ao lado de sarcófagos, Pollock´s, Picasso´s e sorri quando fotografada ao lado do Grito de Munch. Um bom presságio para minha vida.Agarrei um Elvis de cera, toquei no rosto do boneco Mandela, bati um papo num banco de praça com Woody Allen. Senti a teia do Spiderman no meu pescoço! UI!

Conheci duas mulheres incríveis, fui praticamente adotadas por elas. Ambas faziam eu me lembrar de minha relação com mamãe. E isto foi engraçado, me ver ali com minha mãe quando fui adotada por Rafaela e Vânia. Ensinei um turco a sambar quando ele me mostrou seus passos de ballet, me acostumei com tanta gente falando sozinha nas ruas, com os indianos querendo me cobrar tudo mais caro, com a vontade de me encher de presentes e fazê-lo.

Andar sem rumo, feliz, me redescobrindo e quando achei que já tinha visto tudo, eu a encontrei.

A “A árvore sobrevivente”, uma pérola do 11 de Setembro, uma fortaleza que permaneceu firme aos desabamentos, às tempestades, aos gritos e perdas. Desculpem se pareço pretensiosa, mas foi ali que me achei. Naquele espelho meu, em todas as vezes em que as pessoas falavam que eu era corajosa e eu não acreditava. Me vi ali, sobrevivendo a todas as tragédias. O que nos diferenciava era que ninguém joga moedas para que eu realize sonhos. Orei nela, pedi sua força, a energia boa de toda superação. Orei na Igreja de St. Patrick, de St. Paul, em frente às sinagogas… ao meu Deus que é um único amor, uma única fé…

… E voltei a ser criança, na contramão de “Quero Ser Grande”. Dancei em cima daquele piano, comprei o gato da Alice, vistei o Plaza lembrando de “Esqueceram de mim”. E aos poucos o céu nublado dava lugar a um dia lindo de sol que fotografei para eternizar.

“Podemos viajar por todo o mundo em busca do que é belo, mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos.” (Ralph Emerson)

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