Do outro lado do muro, do vidro fechado, do campo, das grades, do jogo, da vida. Do lado de lá, muitas vezes separados por uma película invisível chamada olhar. Ali, nesta tênue linha de viver, no auge da descoberta e da sabedoria.

Contra o tempo, olho no relógio, na garantia, no argumento e na agenda. Correria para resolver tudo antes de voltar ao trabalho e faltar minutos para compor as horas. De uma certa forma, aquelas árvores libertas da Vila Mariana trazem um frescor na turbulência burocrática em que me encontro. Pernas para descer metros e metros de números tranquilos, de casas antigas, de sossego. Nem parece que dali a alguns minutos o trânsito ferve, exige e atrapalha.

Estou cansada, confesso. Da estação Vila Mariana até a bendita autorizada da Apple há um espaçamento gigantesco. E ainda desanimo quando penso que subirei esta ladeira para voltar. Tudo bem, agora cheguei.
Meus olhos não querem acreditar, ali, naquela casa imponente, uma folha A4 com escritas a base de canetinha informando que mudaram de endereço. Está do outro lado da Domingo de Moraes. Isso significa que minha saga dobraria, eu enfentaria faróis, buzinhas, dores nas pernas, falta de ar, cansaço e um mal humor absurdo por não terem atualizado o endereço na central da empresa. Estou furiosa.

Passo a passo, praguejo sobre a falta de profissionalismo para com alguém como eu que voltará a dirigir daqui a pouco, mas ainda conta com as próprias pernas. E subo, subo, enclausurada na minha falta de olhar, abraçada pela película do meu lado de dentro, olhando para mim e meu problema grandioso. Até que paro em uma esquina, esperando aqueles dragões motorizados passarem. E continuo ali, falando mal dos caras. Mas me viro e vejo um sorriso.

Atrás de mim, do lado em que já deixei alguns passos e frustrações, uma pequena mulher me olha:

“Você é bonitinha”

A turbulência desparece e desabrocho de dentro de mim em um sorriso. Já que está tudo atrapalhado mesmo, vou até ela. A senhora encantadora está do outro lado do Portão.

É uma casa aparentemente bem cuidada, com a entrada avisando que ali é um lar de idosos. Me aproximo e começamos a conversar. Maria Aparecida pergunta meu nome por quatro vezes durante nossa conversa. Me convida para um chá, pergunta quantos anos ela tem. Sua pele, apesar de mostrar tanta experiência, é bem cuidadada, chuto vinte anos a menos para seus noventa. E caio na gargalhada quando ela, olhando para meus cabelos e percebendo a tinta que o colore, diz para mim que aquele prateado incrível em cima de sua cabeça é natural.

Aparecida me convida para ir em sua casa que fica entre São Caetano e São Paulo. Faz questão de me falar sobre o lar como se estivesse de passagem e eu não questiono nada, acredito em cada palavra que diz. Creio que está ali só para supervisionar os outros, que daqui a algumas horas estará em casa e que faz isso, pois sua irmã coordena aquela casa. Percebo no jardim uma enfermeira, a qual nos observa, mas não nos atrapalha:

“Menina, gosto de você porque você vê o lado bom de tudo”

Já me disseram isso algumas vezes. Tenho mania de ver o copo meio cheio, mas por vezes acho que me decepciono com esta visão.

Abrevio nossa despedida em apenas um sorriso. Ela me deu sua paz e eu a minha atenção. Saio leve, em paz. O caminho não me parece mais tão longo, a decepção nem tão grande. E eu ganho uma história olhando de fora para dentro.

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