Olhos de Capitu. Aquele amendoado, verde, como capa de livro para contar uma história. Ela começa há 84 anos atrás, na tradicional família Figueiredo. Ali, Nascia a primogênita do empresário do pão José. E assim, cercada de 17 empregados, cavalos, banhos de água de colônia, aulas de francês que a princesinha vivia. Mas como todo conto de fadas, uma bruxa má chamada traição visitou aquele castelo e tal qual branca de neve, Maria Terezinha viu seu pai morrer do coração, comendo uma maçã, após descobrir que o homem de quem fora fiador havia descumprido o trato e o levou à falência.

Assim, aos nove anos, a menina se viu órfã de pai e posta na rua junto com sua mãe e sua irmã de apenas 1 aninho. No lugar de cavalos, ratos lhe visitavam no porão que fora viver. O banquete fora trocado por pedaços de carne doados para a magra sopa dela e do bebê. E enfrentando dificuldades, contos de fadas sem final feliz, uma guerra e O preconceito, minha avó vive.

Desprovida da figura de avó de pão de queijo, cresci ouvindo suas histórias. Logo que se viu moça, ajudava a mãe na lavagem de roupas e na preparação de doces, afim de vender e ajudar nas despesas da família.

” Ainda me lembro de quando os moços de pensão me davam gorjetas e eu morria de vergonha.”

Logo que se viu na idade, ingressou na faculdade sem deixar de ajudar a mãe com doces e as roupas. E assim, não só ganhou o prêmio de miss por sua beleza genuína, como conquistou seu primeiro emprego. Nos idos dos anos 40, enfrentou o preconceito de dentro e de fora da família. Naquele tempo, a mulher que escolhia trabalhar fora do seio familiar era chamada de prostituta. Por vezes ouviu seu desejo de independência ser ligado a este ofício.

Nem assim desistiu de escrever o próprio livro de sua vida. Desde menina, seu conselho para mim não era um bom casamento, mas ser livre, independente, uma mulher conhecida por meus feitos e não pelo famoso ” esposa de fulano.” Isto tudo porque anos mais tarde escolheu o menino autodidata, que tocava violão e veio do interior ao médico da cidade grande. E com ele teve uma filha, a vida de conforto, felicidade, até que o destino lhe pregasse outro drama.
Aos 54 anos, viu- se viúva, com um neto recém-nascido e uma filha que nunca aceitou a perda de pai. Assim como uma das fortes mulheres da literatura mundial, decidiu que passaria a primeira noite de sua viuvez e o resto de sua vida sozinha.

Os anos passaram, muitas páginas foram escritas, mas nenhuma doeu tanto quanto a perda da filha única, seu principal elo comigo. Naquele dia, ela me confessou que já sabia. E quando foi consumada a perda, sua reação foi espantosamente forte. Ao me olhar abatida e sem forças, disse- me para levantar e viver que eu ainda era jovem.

Por vezes, questionei suas reações, seus distanciamentos. Por um lado era muito austero perceber frieza, inércia diante alguns fatos da história de nossas vidas. Mas depois, quando ela Se Aproximou de mim e eu decidi ler sua vida, força e experiência percebi que em meu álbum de família havia uma das grandes heroínas já descritas, criadas e dona de seu próprio destino. Suas rugas hoje são letras compostas, seu esmalte vermelho sinal de vida e sua aparência frágil esconde um livro aberto.

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