“Eu canto para seduzir a vida”

A sorte de amor tranquilo com sabor de fruta mordida não foi suficiente para enganar a morte. Mas o gosto que escorria por cada letra cantada fez a vida ficar hipnotizada diante de delícias em forma de música. Cazuza inspira até hoje.

Procurei um gosto naquele lugar branco, inóspito, talvez um café trouxesse aconchego. Não só recolho histórias como tenho mania de decorar nichos com aromas. De certo, ali parecia uma cozinha. Sala limpa, arejada, mas ao invés de panelas, histórias e no lugar de comida feita, minhas ideias.

O chef continuou a entrevista:

– Então, o quê seria terapêutico para você, escrever?

– Cozinhar.

– Mas você não conta histórias?

– Também cozinho.

– Mas fez outra faculdade?

– Não, aprendi com o Edu Guedes, depois de um bolo de iogurte. E com a Rita Lobo, Olivier. Lucas Corazza. Nenhuma faculdade. Só livros, programas…

De preferência bem escondido. Assim como a criança deixa a massinha guardada para moldar seu mundo, minha terapia é ficar trancada na cozinha. Quero ninguém por perto, é um ritual particular este de misturar temperos, acompanhar cada passo como se cada pessoa que inventou aqueles sabores fosse meu personal trainer.

Eu tenho que saber a hora certa de respirar, de aguardar a fervura, de perceber quando uma massa está al dente. E esta alquimia que prende a minha atenção, envolve meus pensamentos e me faz perceber que como cada ingrediente deixa de ser único numa panela, minhas frustrações e revoltas também vão embora.

E o que chega é o sabor de uma nova conquista, um prato diferente, aquele perfume de bolo quente que abraça a casa, de alecrim, marca registrada da minha comida. Nada se compara a um fermento funcionando, àquela cor do chocolate tentando ser ganache. Ao arroz quente exalando aquela pitada de azeite.

E o psicólogo para. Encantado por tanta paixão diante de um fogão, tanta salvação em algumas panelas:

– E você prova tudo?

– Provo sim, mas nem sempre como. Perco a vontade.

( Cara de indagação do chef Freud)

Porque o meu prazer não está só em comer. Ele aparece quando eu monto o prato, convido as pessoas e fico só observando, com um copo d´água ou uma taça de vinho na mão.

E aí?

E depois me satisfaço só com um “Hummmm” ou algum sorriso. Não há nada mais gratificante do que arrancar sorriso com a própria comida. E eu deixo minha risada passear um pouco também.

E o meu dia fica bem melhor.

– Cozinhar é a minha receita pra você, então. Cozinhe, o quanto você conseguir se isto faz com que você vença alguma tristeza.

Por vezes, minha cabeça viaja tanto que sou capaz de fazer um banquete para oito pessoas civilizadas. Mas decido não assustar meu terapeuta. Cozinhar,  a gente nem sabe se vai dar certo, ou profanamos algum prato com bacon. Também tem aquele momento em que você coloca pouco mais de farinha aqui, um leite ali. A vida tem disso.

Parafraseando o menino “Cajú”, acho que cozinho para seduzir a vida…

… E tentar enganar a morte.

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