“tempo tempo tempo tempo”

Era a resposta, era um clichê, era a verdade.

Não li, não me disseram, me presentearam. Eu não estava em uma igreja, em um consultório psiquiátrico, no colo da mãe, no abraço de um amigo. Ganhei meu presente em um banheiro, enquanto escovava meus dentes, após o apertado horário de almoço. Não estava vestida para esta revolução, sem ao menos ter tido tempo de estar preparada para o encontro.

E quele sussuro que me fez depositar a escova de dentes na pia e, cautelosamente me virar para trás, não havia estado no meu carro, no dia anterior, enquanto eu dirigia e fazia uma oração, no momento em que eu desabafei, rebobinei minha vida e passei a limpo um presente que me fez sentir falta do passado:

“tempo tempo tempo tempo”

Espantada, eu respondi:

– És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho…
– tempo tempo tempo tempo…
– Você conhece esta música?
– Eu ouvi na minha casa e me deu vontade de cantar agora.

Por que será? Me agarrei à resposta de que este enigma, por mais clichê que fosse, era um marco, um presságio. Não, eu não vi um cego mascando chicletes que me fez repensar uma vida de dona de casa angustiada. Eu vi foi uma menina, no auge de seus sete anos, com cabelos claros presos em um rabo de cavalo e um sorriso que iluminava tudo. Ela fez com que eu boiasse sozinha, abandonasse o mastro em que tentava me salvar em um mar de tempestate, de uma revolta das águas, dentro de mim. E o mais bonito: Ela não estava do outro lado do espelho.

Não era o meu reflexo. Estava atrás de mim, quase que escondida em traquinagem, querendo ser invisível. Ela me mostrava que o tempo passa, mas por vezes, quando o amadurecimento ainda nem nasceu, a graça está na inocência de quem mal saiu das fraldas, de quem conta o tempo de acordo com quanto tempo falta para o aniversário, se o bolo está demorando para assar, quantas horas faltam para ser o Amanhã.

E numa ciranda desenfreada, esqueci meu relógio e seu tic-tac que não me trazia aquela poesia da música que marcou tanto a minha vida e agora se fazia recomeço.

Minutos depois, reencontrei aquela criaturinha pulando corda, contando os segundo por seus saltos. E parei em frente a ela, agachei para que ficássemos no mesmo patamar de cumplicidade. Olhando em seus olhos, ela abriu um largo sorriso. Seu nome era Maria Eduarda, um de meus preferidos, e eu lhe contei o segredo daquela tarde e a agradeci por ter sido a mensageira de minha paz. E nos abraçamos, não sei por quanto tempo…

Porque o tempo cura. Espero que você, Eduarda, um dia descubra isso. Consiga entender que alguns sofrimentos são inevitáveis, algumas derrotas também, mas que podemos contar o tempo pelos momentos em que fomos felizes, bravos, corajosos. Pelos Sim que dissemos à nós mesmos, pelas escolhas que deram certo, por sabermos que vai passar, ainda que uma tatuagem permaneça. Que se hoje é insuportável conviver com isso, amanhã olharemos para trás com carinho e sabedoria.

Por quantos saltos de cordas conseguimos dar.

Para Maria Eduarda… e Caetano Veloso.

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