“… O sertão é do tamanho do mundo…

… Sertão é dentro da gente…

… O sertão é sem lugar…”

Esta é uma história sobre Sertão e todas as suas mirabolantes possibilidades. É uma cantiga de boneca de pano, um conto de princesas com fadas madrinhas. É uma brincadeira sobre a vida.

E nesta terra batida e rachada, a água chega inundando. Dizem que no sonho quer dizer que é vida. Mas nos olhos da poesia era o possível cruzando tristeza.
E quando as páginas desta história começaram a virar pelo vento, chegou foi um navio trazendo trÊs mulheres, embaladas de cantigas de milagres…

“Eu não sou daqui,
Eu não tenho amor…”

Na comunidade de Abadia, mar não tem. Água é só de rio. Marinheiro se conhece é só nim história, mas embolada de vida é universal. E da embarcação do sonho elas vieram. Troncudinhas, com pés em formato de raizes, quenem extensão de terra. Pele queimada de sol e quando eu as toquei, senti a aspereza da roça que embalava uma doçura de cana.

Com olhar ainda de bichinho do mato, a desconfiança. Mas no sorriso de menina-moça, o presságio. Vieram com a missão de ensinar a fazer boneca.

Impossível, inatingível, num dá.

Três palavras minhas que cairam por terra quando Cida me mandou dizer que naquele dia eu sairia com uma boneca feita pela palma de minha mão.

Me puseram foi no chão, sentada que nem na terra delas. Me entregam agulha e linha, esta última escapa porque eu não sabia que na ponta se dá um nó. Cida começa a gargalhar, senta ao meu lado e diz que vai me ensinar a costurar um caminho, o corpo da boneca. E assim ela o faz. Aprendo.

Mais rápido que passar a agulha pela frente e voltar para trás, é fazer um caminho de três furos consecutivos para que a linha finalmente passe. Sinto que vou demorar o dia todo para fechar o corpo da menina que costuro. E começo a prosear sobre a vida, ganhando a intimidade delas. E quando percebo, costurei toda a primeira parte, terminei antes dos outros. Realizo o milagre.

E agora que este primeiro caminho todo está trilhado? Francisca, a outra bonequeira, tira de seu cordel de sabedoria o próximo passo:

– Agora tu vira. O que tu custurô foi o avesso. A gente sempre costura de dentro pra fora pra ninguém ver os pontos. Pronto, agora é escolher o tamanho da cabeça pra pregar…

E quando dou por mim, percebo que não estou fazendo uma simples boneca. Ali, eu estou me fazendo, suturando a mim mesma, minha história. Nada é por acaso. De dentro pra fora, costurando, mas escondendo os pontos. Alinhavando feridas e, por mais que elas sejam fechadas, as cicatrizes estão ocultas, num segredo de cordel, numa história que recomeço a escrever.

Escolho a cabeça, minha racionalidade proporcional e, das minhas mãos, alinhavo os braços para que eles possam agir e transformar. Opto por cabelos negros, nem loiro ou ruivo. Não me perguntem o motivo. Freud deve explicar. Talvez uma rainha da noite.

E Luciana, a terceira fada sertaneja, me ajuda a escolher o figurino. Minha cabeça passeia pela composição de estampas que costumo fazer de forma categórica quando me visto. Mas há um tecido de flores vermelhas. E do cetim vermelho faço o laço de fita da cabeça, o cinto da saia azul. Três cores que amo, cores de branca de neve, mas também pontos centrais da cultura navy, da vestimenta de marinheiros.

Quando me dou conta, tenho uma boneca pronta em minhas mãos, uma minimim costurada, vestida, de cabelos longos e no lugar dos enchimentos, um corpo repleto de sonhos, de superação. Eu a fiz, eu a criei, dei uma vida a ela. Não é um simples brinquedo, é verdade.

E para embalar seu batismo, as bonequeiras começam a entoar cantigas de uma forma que nunca vi. Música que sai da alma, cantada com tristeza, mas que tem uma alegria que me emociona. Aprendo a cantar e choro:

“Pus o meu pezinho na barca. Ô, marinheiro.”

E salgada como o mar, minha lágrima me alerta que decidi entrar neste navio, partindo para um novo horizonte, me despedindo de tudo aquilo que nublava meu céu. Talvez, eu só tenha uns poucos papéis, uma mala pequena pra encher de grandes histórias… Eu me fiz nova, elas me ajudaram nesta jornada. Ela me encheram de presentes não só no mundo das figuras que moram no coração, mas de tapetes coloridos, de bonecas que fizeram, de panos de prato para minha casa que foi adiada.

E quando eu insisti em dizer que não era preciso, me ensinaram que nunca devemos recusar presentes, porque quanto mais os aceitamos, a vida acorda e percebe que merecemos ganhar muitos outros.

O navio delas parte levando toda a água que o trouxe, mas deixando meu sertão com terra aguada, com os primeiros brotos de árvore surgindo. Enquanto eu retomo meu caminho com um pé branquelo no chão e meu vestido molhado, esta folha trago na bagagem. E uma música para quem é equilibrista e se descobre viajando na vida…

“Ô, marinheiro, marinheiro
Marinheiro só
Ô, quem te ensinou a nadar
Marinheiro só
Ou foi o tombo do navio
Marinheiro só
Ou foi o balanço do mar
Marinheiro só”

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