Se eu sei o nome completo? Não, não sei.

Como? Telefone? Não pedi, ele não pediu. Foi um destes encontros casuais, não programados.

Então… Eu levei um bolo, só recebi a mensagem na porta do Centro da Cultura Judaica. Por um momento, quando eu li que a Gabriela não chegaria a tempo, pensei em dar meia-volta, eu estava meio deprê. Era dia dos pais sem minha mãe, o tempo virou e eu estava com camisa e uma jaqueta jeans. Eu estava triste pra caramba. Mas já estava lá, né? Então eu decidi entrar.

Se eu cheguei cedo? Demais, sempre faço isso. Ah tá, eu conto! Eu cheguei, fui tomar um chá, li o jornal, e sentia que todo mundo me olhava. Não era verdade. Só estranhei porque eu nunca me incomodei com isso e eu fiquei incomodada no dia. Saí da mesa e fui pro sofá mexer no celular e o tempo não passava. Peguei o ingresso e o tempo não passava. Fui ao banheiro voltei e além do tempo não passar, não tinha mais lugar.

O tempo, este troço esquisito que tinha inclusive a ver com o documentário sobre um relógio perdido na Hungria. Além de deprimida, eu era estranha. Quem, num domingo cheio de frio iria ver um doc sobre o tempo, o holocausto, a dor, a renovação?

O quê? Calma, eu vou contar agora, este é o gancho, entende? Tinha um estranho pior que eu. Voltando… Eu saí do banheiro e pedi licença num cantinho de banco. É, ele quem estava lá. Eu pedi o programa do festival emprestado, ele me emprestou com vários papéis dentro. Tinha o ingresso e tudo lá dentro. E começamos a conversar. Não, ele não é judeu, mas ama II Guerra. Me contou sobre um doc que assistira e que eu estava louca pra ver. E me alertou sobre o peso das cenas e tal. Mas eu disse que não importava que eu já li e vi coisas horríveis sobre o tema. Ele riu.

Ah, e me contou que estava de saco cheio de esperar, que o tempo não passava, que já tinha feito de tudo e tinha vontade de arrancar os braços das esculturas. Eu ri.

Aí, abriram as portas e ele disse pra eu esperar que ele iria ao banheiro. Só que eu fui para o que seria o final da fila, o tempo passou e a fila cresceu, nos perdemos. Só fomos nos reencontrar no pior lugar do teatro, quase quebrando o pescoço pra ver o filme.

E ele me disse que era arquiteto, eu disse que era socióloga. Ele disse que trabalhava no centro e eu no Sesc. E ele me disse disse que havia projetado uma sala pro Curumim do Sesc Franca e que sempre almoçava no da Consolação.

O filme começou. O filme terminou. Como assim? Eu nao tenho paciência para bate-papo com diretor. Ele também não. A porta se abriu, ele perdeu o carro na rua. Mas antes de ir embora, perguntou o meu e disse seu nome.

Fomos embora.

O que eu acho estranho nisso tudo e por que escrevi isso tudo? Porque foi legal descobrir outro estranho naquele dia, porque conversar com estranhos, por vezes, deveria ser obrigatório.

Como ele era? Magro, olhos claros, roupa preta, estiloso.

Por que eu quero encontrá-lo? Por que quando ele me emprestou aquele programa dos filmes, eu não estava completamente sozinha.

Mas se tivéssemos sabido mais um do outro, não haveria texto nem história.

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