O Goleiro.

Ali, no fundo do alvo, fica um cara chamado goleiro. Nem zagueiro, nem atacante. Não, ele quase nunca é lembrado constantemente. Mas se o gol sai, todo mundo aprende rapidamente o nome de sua mãe. Se a bola não entra, ele aparecerá durante uma semana nos programas esportivos, algumas camisas com seu nome serão vendidas… até o próximo jogo.

A bola veio, como que em câmera lenta, o time todo acompanhou seu trajeto. Ela foi pro gol. Mas não entrou. Espalmada, tirada, parida, ela voou e foi longe, lá para o escanteio. Mas o goleiro ali, ficou no chão, quase que depois de um milagre, de um duelo, do sacrifício. Quando a redonda tocou sua mão, a colocou inteira para trás e, como todo parto, ele sentia dor.

Chamaram a enfermeira. Não, era tipo a técnica. Na verdade, a professora. Quando viu o estrago do milagre nas mãos daquele salvador, ela percebeu a intensidade do caso. O Time que deixou o goleiro esquecido como que em quase toda comemoração de gol, parou a partida. “Que entre a equipe médica em campo!”. Só faltou isso. E lá se foi o menino, no auge de seus 10 anos, depois de uma brilhante defesa que lhe custou um punho quebrado.
A professora esperou o parecer médico. Desculpe torcida, mas o goleiro deixa o jogo para o hospital. Só faltava avisar a famosa mãe. Mas ela demorou, demorou… “O clube já está se organizando para saber quem acompanhará o atleta!”

Mas ele só queria uma pessoa. Se a mãe não aparecesse a tempo, só iria para o hospital com a professora. E ela subiu toda uma rampa assim que chamada. Encontrou o pequeno grande goleiro sentado na cadeira, segurando gelo no braço, tremendo não pela dor ou frio, mas pela partida, pela memória da saudade. Há dois anos, o goleiro perdera não um gol, ou campeonato. A irmã foi embora, de repente, sem aviso. Desde então, ele sente medo de ser esquecido, de ninguém aparecer sem deixar notícia, de uma torcida que jamais lembrará seu nome.

A professora o aninhou em seus braços, segurou o gelo e ele foi parando de tremer:

– Se eu for para o hospital, você vai comigo?
– Sim!
– Você promete?
_ Sim!
– Mesmo que seu horário de serviço tiver terminado?
– Sim!
– E seu carro?
– Vamos de táxi e depois eu volto para buscar. Eu prometo que não vou te deixar.

– Pronto, a gente já pode ir para o hospital.

Daquele dia em diante, quase um mês que o menino de cabelos encaracolados, bochechas rosas e olhos de amêndoas se afastou dos campos. Mas ao reencontrar a Professora, sua torcida e seu time, ele já não se sentia mais só.

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