Esta é uma história sobre mãos. Na verdade, uma crônica sobre os dedos.

Abri minhas mãos como sementeira em um domingo qualquer ensolarado, recebi cada palavra da mesma forma com que Pagu recebeu a soja do imperador chinês: Cheia de sonhos. E as guardei com mãos fechadas e dedos que sufocavam com vida cada partícula de letra que, aos poucos, foi brotando numa gestação.

Esta é uma história de Amor.

E pra contar uma história de Amor, busquei uma música daquelas que, quando sopradas, arrancam a gente da gente mesmo e nos entrega ao outro. E neste desapego de alma e de chão, encontrei as mãos de um maestro, ainda que tortas, entoando um delírio de sentimento.

Uma história sobre as minhas mãos que se abriram para escrever, as de João Carlos Martins que desafiaram as teclas para sussurrar “Eu sei que vou te amar”, e as de Natan que num banco de um domingo cheio de sol me contou sobre um outro maestro, outras mãos e o Amor.

E com mãos que flutuam sobre um teclado e se fecham para conseguir agarrar e escrever este sentimento, eu cerro os olhos e tento imaginar as mãos de João, flutuando em seu piano imaginário, em seu concerto distante, quando seus dedos ainda direcionavam ao céu sonatas, partituras e corações. Neste momento, abro meus olhos e encontro os dedos de Natan ainda tímidos, mas querendo me entregar esta memória de vida.

O rapaz alto, de cabelos enrolados e senso de humor inteligente ainda era menino quando se decidiu por cuidar de velhinhos. E foi num lar de idosos que conheceu o marrento ex-maestro João, homem de certa idade e com um passado glorioso que os anos já não podiam mais contar. O Alzheimer levou dele uma vida toda, uma orquestra inteira, a delicadeza. A doença roubou João dele mesmo, impedindo que se entregasse ao mundo como música.

O homem que tocou instrumentos e vidas começou a tocar a aspereza da revolta, os outros com violência, a vida com certa distância. Mas ainda assim, em seu novo mundo, ele tinha dedos para num air piano entoar melodias que o ligavam com algo bom dele mesmo. Natan decidiu se arriscar, chegar perto, tocar Seu João com atenção e, aos poucos, foram se tornando amigos. Ele até mesmo arranjou um teclado para que o ex-maestro pudesse finalmente trocar o piano imaginário por teclas de realidade. E neste dia, os olhos brilharam, as mãos se abriram, os dedos dedilharam qualquer coisa que a memória não foi capaz de tocar, nem de fazer qualquer som.

Nem João, tampouco sua música, estavam sozinhos. Esta não é só uma história sobre um garoto de 16 anos agarrando a vida com solidariedade e sua amizade com um velhinho. É uma crônica em forma de música que poderia se chamar Dona Deli. Ela, a melodia dele, a inspiração dele, a única coisa que imprevisto de vida nenhum conseguiu levar de sua própria vida.

A senhora de alta sociedade, bonita, educada e eternamente apaixonada por um maestro transformado pelo destino. Dona Deli fez valer todos os votos da igreja, as mãos dadas durante anos, os aplausos de orgulho por um homem que a tinha como único tesouro e salvação. De olhos brilhando, Natan me conta que, categoricamente, ela visitava João todos os dias, como se ainda vivessem juntos, estivessem fazendo um passeio. A senhorinha frágil o agarrou do esquecimento e o fez viver pelo seu amor.

Natan presenciou aquilo que todo mundo sonha, mas poucos sentem pela vida. E como testemunha de que o Amor é possível, começou a produzir Seu João para encontrar sua querida Deli. Quando ela chegava, ele estava barbeado, arrumado, pronto para viver aquilo que nem mesmo a doença foi capaz de apagar. Ele a esperava e ela vinha, como se fosse a primeira vez, naquela dança de conquista, de coração batendo forte, de dia ficando colorido. E com todo este companheirismo, ela dava a ele a certeza de saber do amanhã.

Quis a vida que um dia o amanhã não chegasse. E foi numa noite em que Dona Deli se pôs a sonhar que o tempo a agarrou e, por tão especial que era, não permitiu que ela voltasse. Ela partiu dormindo, em sonho. João a esperou, a esperou e, por mais que ninguém tivesse contado a ele, a espera de não tê-la foi tão grande que a vida se fez justa e decidiu levá-lo em melodia pouco tempo depois. Creio eu para encontrá-la.

As mãos de Natan suspiram, as minhas levam meus dedos para enxugar sentimentos. E o silêncio se faz.

Esta é uma história de Amor…

 

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