Desilusão. Geralmente quando a educadora é chamada para resolver questões cardíacas, esta é a grande causa. Um amor que não foi correspondido, a sensação de experimentar e não ser aquilo que se imaginava, a espera de uma resposta que dura dias, meses ou nunca aparece. Muitas vezes, entro em pânico neste tipo de conversa. Não porque tenho vergonha ou pudores. Mas porque até parece que nós adultos temos uma vida exemplar se tratando do Amor, que somos especialistas neste assunto. Mas eu tento, na minha vida e na deles.

Eu posso ver a menina se jogando na poltrona e lamentando. Ela decidiu não amar nunca mais. Sim, algo extremamente pessimista, mas uma boa ideia também. Cansou dos garotos, eles são chatos. E naquela sabedoria infantil, decide omitir que amou dois, fez ciúmes para ambos, ouviu música com um, mas o outro… Ah, o outro! Ele era muito romântico.

No começo, mandou um bilhetinho. O conteúdo daquele papel que fora rascunho estava escrito com lápis de cor. Ele tinha uma frase: “Quer namorar comigo?”. A resposta seria dada de uma forma didática. Bastava assinalar o quadrado com o SIM ou o NÃO. Ela não me contou a escolha. Tudo que sei é que os bilhetes continuaram. Ele chegou a desenhar o filme da vida dos dois. Primeiro se casavam, depois partiam para a lua-de-mel no Hawaii, o nascimento dos filhos e viveriam felizes para sempre. Enquanto isso, o da música que tinha fama de colecionar objetos não- identificados, preparou para ela um colar. Mas aquelas cartas superavam qualquer coisa.

– Mas vocês não são muito novos para isso?

– Mas é como brincadeira.

– E como é isso?

– Ele me manda cartas por outras pessoas. Mas é esquisito.

– Por quê?

– Porque ele só olha pra mim e sai correndo!

Impressionante como estas brincadeiras acontecem algumas vezes na vida adulta. Eu até quis contar pra ela que talvez a gente sempre escolha o cara da carta, que muitas vezes a gente espera que o que está no papel se torne real. E que é verdadeiramente um saco quando eles olham pra gente e saem correndo. Correndo das nossas neuroses, do nosso exagero sentimental, dos milhares de coraçõezinhos que queremos mandar ao invés de mensagens polidas e sensatas. Mas não contei.

Não contei porque desistir de tanto sentimento junto é bobagem, ainda mais tão cedo. Talvez, nunca sejamos maduros o suficiente para bancar esta desistência, nem desumanos demais para isso. Não contei, pois eu queria desmoronar naquela poltrona e contar que eu sei o que são aquelas maratonas de olhares e fugas, como a gente se sente com as cartinhas e que talvez eu tivesse assinalado o “Sim”. Não contei, pois quando aos prantos outro garoto me perguntou se eu sabia o que era amor, eu devia ter dito que SIM, sabia, fazia um monte de besteira também, chorava no meu quarto, mas ficava escrevendo textos gigantes para justificar sentimentos ou limpar a alma. Não, não contei. Deixei que ela imaginasse que alguma coisa iria mudar, mas que no fim somos os mesmos, que podemos ter mil amores, mas agiremos da mesma forma sempre.

Eu não contei, pois eu quis que ela descobrisse o melhor, o gosto bom, até mesmo da saudade. O que eu aprendi sobre o amor é que devemos enlouquecer, desistir, se jogar em poltronas… Mas naquele momento de olhar e tentar fugir, decidir por ficar.

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