Quando ele me olhou, abriu um sorriso amistoso. Quem sabe ele não me quisesse para sua coleção, guardando minha data de aniversário, os dias que pareciam que não passavam, quando dei meu primeiro beijo, entrei na faculdade, quantos amores eu tive. Eu só vim a saber depois de muito tempo que ele colecionava vidas.

O pequeno japonês me saudou com um “olá” quase que familiar. Foi quando da cesta eu tirava os materiais da oficina e dos livros ele guardava algumas vidas. Na verdade, eram revistas. Pelo menos naquele dia, num domingo ensolarado em que a família se junta e enfileira juras de amor eternas. Ele não. Quem o acompanhava era uma coletânea de famosos, revistas de fofocas, daquelas que contam quem namora quem, quantos quilos fulana perdeu, quantas vidas ciclano teve em cada personagem que interpretou. Geralmente, eu pediria licença, espalharia os objetos na mesa convidando quem quisesse construir aquele cartão postal. Mas não o fiz. Deixei que minha mão deslizasse o papel, a caneta e as palavras para outro canto.

Ele era uma figura interessante. Parecia que me conhecia há tempos, sabia que eu era professora ali do Sesc e me chamava assim, de “professora”. Mal sabia ele que naquele dia não seria eu quem iria ensiná-lo. Quando todos terminaram suas cartas para mundos distantes, cheguei mais perto. Tentei ler o que tanto ele escrevia naquele imenso caderno, mas me reprimi. Não podia fazer isso. Quando perguntei, ele me mostrou, com o mesmo sorriso de sol nascente, aquele pequeno japonês. E pude ver datas, e pesos, e personagens e vidas. Ele colecionava informações de outras pessoas. Pesquisava suas vidas, não como os serial Killers fazem. Ele treinava a sua memória pela memória dos outros.

Parei e sorri. E fiquei pensando se contar histórias também não seria isso. Se a cada pessoa que eu encontro, não acabo por trazê-la à minha coleção. Se cada vida que me contam, não seria uma parte dela. Talvez eu também colecione vidas, treine minha memória com os segredos dos outros, enfileirando cada vivência em prateleira, dentro de mim.

Foi quando ele decidiu falar sobre si mesmo, da infância no centro de São Paulo, pobre e feliz. Da vontade de servir sopas para aqueles que tem fome. Do desejo de trabalhar no Sesc, por quê, não? Mas na verdade, tudo isso para não tinha importância, muitas coisas deveriam ser esquecidas. Nem sempre nossa vida possui algo de tão extraordinário para lembrarmos. Apesar de se confundir com sua idade, ele sabia quando Isabelle Drummond começou na TV, quantos amores Luciana Gimenez já teve, qual foi a primeira novela de fulano, quando ciclano morreu. Ele vivia dos outros, pelos outros. Seus arquivos escondiam suas fotos para que outras pessoas aparecessem em revistas. Ele era o guardião de vidas, como que quase num castelo em forma de biblioteca, destes que etiquetas ajudam nossa memória. Da mesma forma em que o bibliotecário perde seu nome para ser batizado de função. Apenas existindo, fazendo parte, mas quase que imperceptível.

O homem que colecionava vidas espalhou a sua no mar, talvez num de águas feitas de tristezas, de falta de alguém para conversar, da própria vontade de esquecer para continuar vivo. Ele estaria vivo a cada informação sobre o outro escrita e que sepultava a própria vida. Não tive pena, ele não era o único no mundo a colecionar, a enfileirar lembranças. A juntar cacos e a sonhar em ser o outro.

Comecei a juntar as coisas na minha cesta, colecionando os cartões postais daqueles que escreveram e os deixaram ali, talvez por não terem para quem manda-los, talvez porque sobre eles não havia nada de interessantes que os fizessem especiais. Mal sabiam eles. Carlos também reuniu suas revistas, seu enorme caderno de lembranças de suas viagens colecionáveis e solitárias. E lá fomos nós, colecionando gente.

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