Alguns caras a gente vai amar pelo resto da vida. Nosso melhor amigo é um destes sortudos.

Por favor, antes de começar a ler este texto, escolha alguma música do Raul e bote pra tocar!

O meu melhor amigo esquece o próprio aniversário. Talvez por isso eu tenha tido a brilhante ideia de fazer destas palavras um lembrete para ele mesmo.

O meu melhor amigo e eu nos conhecemos com 16 anos enquanto ele dormia. O garoto magro chegou de Campinas para estudar na minha escola, mas durante as aulas ele preferia viver nos sonhos. Até que um dia, achando aquilo meio estranho, resolvi acordá-lo e perguntar “E aí, quer ser meu amigo?”. Depois disso, ele continuou a dormir nas aulas, mas já ficava acordado nos intervalos.

Meu melhor amigo, dormindo acordado ou sonhando a realidade, passou na USP. Existe alguma genialidade no sono deste cara. Como há genialidade em torcer pra Ponte Preta, em ouvir Raul e franzir os olhos quando eu falo alguma bobagem. Meu melhor amigo é genial.

Meu melhor amigo um dia, sentado num bar comigo enquanto ouvíamos Queen, me perguntou o que faríamos da vida já que o cursinho chegava ao fim e as Ciências Sociais nos aguardavam. Eu respondi que poderíamos nos divertir. Mentira, eu e ele saberíamos mais tarde que a vida nem sempre pede uma festa.

Meu melhor amigo é a pessoa mais generosa que eu conheço, mais silenciosa que eu conheço, mais paciente que eu conheço, mais libertária que eu conheço. E olha que eu conheço gente. Por vezes, me pergunto se ele tinha consciência da loucura que seria aceitar meu pedido de amizade.

Meu melhor amigo é a calmaria no meio do furacão que eu causo, é aquele abraço quando o mundo me estapeia, foi o silêncio mais precioso e parceiro que eu tive no dia mais triste da minha vida. Ele dividiu comigo a falta de palavras e dizem que, se você consegue ficar muito tempo sem falar nada ao lado de alguém, significa que ali existe intimidade. Meu melhor amigo é íntimo e pessoal.

Meu melhor amigo é o Nando Reis quando me sinto a Cássia Eller. Ele faz a letra e eu boto a voz. Ele é a análise do caos, a risada disparada em um de meus ataques de indignação, a pessoa que eu ligo quando quero conquistar o mundo ou simplesmente não fazer nada. Não fazer nada com ele é desenhar o tudo.

Meu melhor amigo tem muito de mim e eu tenho um tanto dele. Ele não quer ser pai, mas lá na adolescência prometi que emprestaria meu guri quando ele quisesse jogar futebol, ir ao estádio, comprar ovos de páscoa pra alguém. Meu filho chamará Enrico.

Meu melhor amigo tem o apelido de Henrico, Rico, só não o chamo de Henrique. Este nome tem nada a ver com ele.

Demorar 12 anos para escrever algo sobre talvez tenha sido a escolha perfeita de palavras para dizer o quanto ele é importante para mim e para o mundo. Verbalizar que, por mais discreto que ele seja, torna-se alguém inesquecível, visível, tátil, único.

Ao meu melhor amigo chamado Henrico, um obrigada por me aceitar e aceitar este texto.

 

Eu te desejo amor, irmão!

 

 

 

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