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UUUUUuuuuUUUUUUUUUUU.

Quando entrei naquele táxi, o Ozzy já me esperava.

– Adoro esta música!

– Eu também. A vida é muito louca, né?

E caímos na estrada. Enquanto o motorista me contava sobre suas lutas diárias, eu voltava no tempo com aquele som, aquelas palavras que foram trilha para um momento decisivo da minha vida. Ninguém sabia disso. Só eu… e a voz do Ozzy.

Comendo pista, eu me distanciava cada vez mais daquela realidade dolorida, de uma noite mal dormida, da vontade de chorar que quase me transformou numa adolescente que chega ao banheiro aos prantos porque se magoou.

– Para onde vamos?

Para o céu. Ele riu. Por que aquela moça gostava tanto de aviões, que graça ela veria em grandiosas máquinas que voam desafiando a lógica de uma criança ou a perda da inocência de um adulto? Porque ali ela se sentia em casa, não entre máquinas, mas em seus voos mais profundos, daquele que já nos despedimos na primeira peça de roupa que colocamos na mala, no sorriso que se abre e no frio da barriga de uma partida. Eu estava me despedindo de tudo que poderia ter sido e não foi. De toda fantasia que eu criei, de uma história mal resolvida. E só eu poderia pegar aquele avião. Não era mais o Bowie que um dia me chamou e eu me atirei em um helicóptero esquecendo de todas as barreiras e me abrindo, de cabeça, para um sentimento que agora ensaiava despedidas. Era o Ozzy, cantando para que eu aprendesse a partir.

Silêncio, imensidão. Parecia que esvaziaram todo aquele lugar para que eu sozinha fosse recebida. Entrei em um túnel, ouvi o comandante fazer a contagem, levantei voo. Me deparei com Ícaro e nossas asas derretendo, com tanta gente que se sentia em casa nos ares, assim como eu. Me lembrei que, quando criança, queria ser aeromoça e as pessoas sempre me diziam “Meu Deus, você não é deste mundo!”. Diziam porque eu não conseguia viver em terra firme, eu precisava planar por aí, sonhar um pouco, morrer de amor, ter asas derretidas.

E foi então que uma parede enorme se abriu e eu vi, de todas as formas e tamanhos, aeronaves incríveis, logo depois de cumprimentar astronautas. Era difícil escolher em qual delas eu partiria, em qual eu desceria daquele helicóptero, acenaria um tchau, pegaria minhas malas e vivesse. Mas foi quando as deixei que contemplei algo que eu sabia que sentia falta. Era aquele silêncio que embala e acaricia. Era a paz de todas as tentativas frustradas que me abraçava e dizia “Pode partir, é o seu momento.”

E foi então que me enchi de coragem, que inspirei aquele cheiro de grama e deixei o sol passear nas minhas sardas. Por um minuto, ainda me aproximei dos grandes pássaros de metal, depois disse Adeus e fui ser eu mesma…

– Boa tarde, a senhora já está pronta?

– Sim.

– E então, gostou?

– É, eu gostei. (E escondi aquela pontinha de tristeza no meu sorriso)

Voltei,  e junto trouxe a minha velha mania de quando não quero ser incomodada colocar meus gigantes óculos escuros. 

 

Adeus.

 

Com amor,

Nath

 

Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir”

Amyr Klink

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