– Por quê?

Porque eu sonho isso desde os meus seis anos de idade, porque é legal, é muito mais que falsificações, que comer bichos, que etiquetas Made in China. É uma cultura milenar, é respeito, é vida, é paz. Isso! É a minha paz.

A pergunta sempre veio antes da reflexão. Parecia que ir à China era um pecado, uma loucura. Ninguém vai para aquela bagunça, me diziam. Você é uma moça tão inteligente, vá para a Europa, outros replicavam. Ninguém entende um sonho, só a gente mesmo.

Quando comuniquei a minha ida à China para meu pai, ele desacreditou. Me fez dar explicações válidas sobre o causo, era difícil entender que minha alma necessitava deste encontro. “Mas você não pode se encontrar mais perto?” Não, encontros assim tem endereço certo, tem gente que precisa estar lá, neste caso eu. Mas foi quando consegui o visto que meu pai olhou para mim e confessou que lembrava daquela caneca da Pizza Hut que eu o infernizei para conseguir para mim, pois estava escrito China. Ele disse que entendia esta vitória. E contou que via aquela mesma menina arrumando as malas.

Por muito tempo, adiei esta partida. Sempre colocava outro destino no lugar, mas agora era diferente. Eu estava mais plena, a Yoga começou a modificar muitas coisas dentro de mim e… tinha aquele bendito livro. “Comer Rezar Amar” era a Liz Gilbert narrando minha história. A China seria minha Índia.

Depois de um tempo, as perguntas mudaram. Ao invés do “Por Quê?”, me perguntavam “Mas o que você acha que vai encontrar lá?”. Eu não sabia responder. Todo mundo apostava em um novo amor. Eu descartei logo de cara isso, estava numa energia de encontrar a mim mesma. Os dias foram se aproximando. Faltando duas semanas, meu corpo dava sinais de ansiedade. Eu não dormia, tudo que comia me fazia mal, mas me concentrei em meditar, em abraçar a ideia deste universo totalmente diferente. Pedia ao meu coração que aceitasse este desafio. E fui melhorando até que 7 dias antes eu estava extremamente calma. As perguntas mudaram de novo para “Você não está morrendo de medo?”. Não, eu estou bem. E começaram as celebrações, todo mundo fazia festa, bota-fora, parecia que eu estava indo para a lua. Até que chegou o momento de fazer as malas.

Quando fechei minha última bagagem, fui até o quarto da minha mãe e mentalizei uma conversa nossa, pedindo a Ela que me protegesse nesta jornada tão desconhecida. Depois, fechei os olhos e comecei a conversar comigo mesma, com a Nath de seis anos de idade que começou toda esta loucura. Pedi a ela força, agradeci por ter acreditado tanto em mim e neste sonho e que de verdade, tentaria nunca decepcioná-la. E fomos, de mãos dadas atravessar o mundo com a pulseirinha da “Mão de Fátima”, presente da minha tia Mari, para nos proteger.

Meus irmãos ficaram comigo até o último momento de embarque. Nos despedimos, eles me aconselharam a coisas do tipo “não beba no copo de ninguém” e tudo mais. Quando entrei na área restrita, desabei a chorar. Não era o choro de desespero que tive indo para NY, era um choro de Vitória, de paz. Puta que o pariu, passei por tanta coisa neste ano e meio e agora tô aqui, feliz, sendo agraciada por Deus. E chorava copiosamente. Quando finalmente achei meu portão 23 de Embarque para Madri, um chinês se aproximou de mim e disse em inglês: “Eu te vi chorando. Seja forte, você chegou até aqui!”. Queria contar a ele que era um choro de alegria, mas ele não me deixou falar.

No avião, para variar, fui adotada por todos os chineses. Conversávamos sobre nossas famílias, eu mostrava fotos dos meus curumins, uma loucura. As horas passavam devagar, mas mesmo assim, as crianças chinesas ali presentes estavam serenas. Percebi que a paciência queria entrar na minha vida através dos pequenos. E comecei a aproveitar a viagem. Quase chegando em Beijing, a fome me acometeu. Há quatro refeições naquele avião eu comia yakissoba e meu organismo não aguentava mais. Ao contrário de todos os voos que fiz na vida, A Air China permite uma marmitinha esperta. Naquele momento eu lembrei dos meus curumins me alertando sobre levar arroz e feijão na mala. Que vacilo! O que me restava era levantar e pedir algo para as comissárias.

Quando cheguei ao espaço traseiro do avião, contei o fato e, para minha surpresa, elas me trouxeram muitos, mas muitos lanches e disseram “Isso é o que temos de melhor para você”. Fiquei tão emocionada com a atitude que prometi a mim mesma que eu sempre faria o meu melhor.

Chegando ao aeroporto, vi que meu celular estava sem bateria e eu queria logo mandar um whatss para casa. Foi quando SZhen, o chinês ao meu lado, me deu de presente um carregador portátil. Recusei de imediato, pois aquele equipamento era caríssimo, mas ele fez questão dizendo “Para você falar com sua família, para você sempre falar com quem você ama.”

E assim cheguei à China, e assim passei meus dias por lá, tocando tantos lugares que eu sonhava por fotos nos livros da escola, que eu viajava nos filmes e tudo mais. Mas pude sentir o abraço carinhoso de Deus quando entrei no Templo do céu. Aquilo foi tão genuíno que eu chorei. De verdade, pude sentir Deus me dizendo “Tá aqui, Nath! É o meu presente para você começar a ser feliz.”. Quando também fui conhecer os guerreiros de Xian, me senti tão impactada que me fiz de Curumim e toquei aquela terra, absorvendo toda energia de força dela.

Conheci muita gente boa, fiz amigos incríveis e tive gente que me ajudou demais. Jamais me esquecerei de Laureen, a única chinesa que falava inglês no Hilton de Beijing. Foi ela quem me levou comprar um chip de celular chinês que permitiu com que meu VPN funcionasse que era uma maravilha e eu falasse com todo mundo, além de me levar ao supermercado e me ajudar a fazer minha primeira compra. Aonde quer que esteja, desejo muita luz a ela. Conheci a espanholinha Andrea, de 11 anos, que amava pulseiras e tinha o mesmo paladar que eu. Por vezes, só um bom chocolate salvou nossas refeições. Meus queridos Eliseo e Ana, parceiros de compras, de badalações e aventuras. Alejandro e Lili, cuidando de minhas refeições e para que eu não gastasse tanto.

Vivi situações incríveis como ter meu nome trocado por Jin, pois era mais fácil para eles, ser contestada e consolada por todos por não ser casada, vivenciar um tenebroso 7×1 quando a única torcida do Brasil em Shanghai era eu. E ter minha família me mandando fotos durante os jogos da seleção para torcer comigo. Mas nada, nada mesmo se compara à emoção de uma mulher ao ver meus olhos e me vender uma bolsa por 10% do valor, pois demônios do bem tem olhos verdes. E aqueles 40 alunos de Shanghai que tiraram fotos comigo e juntos fizemos uma bagunça do bem deliciosa.

Mas e quando você fechava as portas daqueles imensos quartos só para você? Bem, foi num destes momentos que olhei uma banheira linda e seus sais de banho e me lembrei da Julia Roberts na Itália, de camisola, sentada no chão, comendo bem, lendo o jornal e falando ” O prazer de não se fazer nada!”. E percebi há quanto tempo eu não fazia isso. Eu enchi a banheira, entrei nela e sorri. Ninguém poderia me tirar aquele prazer, do outro lado do mundo. O prazer de não se fazer nada, de me presentear com um spa particular, com um momento meu…

Eu subi a muralha da China, cada um de seus degraus, não só com meus pés, mas com meu coração cheio de quem eu amava, de tudo o que eu sonhei e com muito, muito amor. Eu subi aquela muralha com fé, com o desejo de uma criança se tornando realidade. Eu a subi e nunca mais descerei de lá.

“Pegar carona
Nessa cauda de cometa
Ver a Via Láctea
Estrada tão bonita
Brincar de esconde-esconde
Numa nebulosa
Voltar prá casa
Nosso lindo balão azul…”

Para a pequena Nath, obrigada por tudo!

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