“Galera, a gente vai entrar por este túnel e não façam barulho, nem bagunça.”

Mas foi quando um garotinho com Síndrome de Down se aproximou naquele espaço do Sabina Parque escola que Guilherme interrogou  a própria  vida:

“Tio, mas eu posso pensar?”

Quando o garoto me contou esta história foi como que se um botão fosse acionado e quele túnel voltasse no tempo. Tem histórias que chegam de longe, outras acontecem para aqueles que estão por perto. Guilherme é meu estagiário. Participei da seleção de todos os candidatos ao cargo, menos da dele, o escolhido. A burocracia permitiu que somente hoje, dias depois de sua chegada oficial, conversássemos sobre a vida.

Guilherme voltou. Não de uma longa viagem, mas eu diria que de uma  boa volta por cima. O garoto que hoje “aprende a educar” meninos de favela já foi um deles, na verdade ainda o é. Parido na comunidade Naval, ele cresceu ali assim como os prédios que se ergueram em sua urbanização. E aquele mundo que se transformava, mudava Guilherme e suas escolhas. Ao invés de avoar levando drogas, ele preferiu pegar carona nas próprias asas. E conforme aprendeu a planar e ter dimensão de seu tamanho, aquele lugar ficou pequeno demais.

Mas não só de sonhos e boas escolhas vivem os homens. Na vida, é preciso saber jogar e foi o que ele fez. Perto de casa só a rua e suas perigosas seduções, mas se mirasse para além da miséria e daquilo que os outros diziam que estava escrito, ele conseguiria ver um mundo no qual poderia ser criança. Então, aceitou o desafio e escolheu suas armas para o combate: Raquetes, mesa com rede, bolinhas especiais. Pronto, estava lançada a primeira grande partida de sua vida.

O Tênis de mesa no Sesc Santo André foi o vício mais inteligente que ele poderia escolher. E o garoto voava a cada rebate, em cada pé que se equilibrava para se fazer o ponto. Ele era bom. Mas como diziam à mesa, amor não enche barriga. Para ajudar em casa, o guri que atormentava a vida escolar se viu bom em alguma coisa e resolveu trabalhar. Por dias, deixava a escola que não o compreendia e levava seus ensinamentos para o “colégio de Boys”. Ele passou a vender materiais de tênis de mesa para os meninos que tinham oportunidade de um futuro. Mas sabia o guri que o jogo ainda não estava ganho.

E foi num destes dias em que o titular se machuca e o reserva pode brilhar que lançaram a ele a camiseta do Colégio Singular e uma vida nova. E o garoto jogou como nunca, conseguindo vencer a partida e mudando de vida. Ele ganhou uma bolsa de estudos. Benditas raquetes e bolinhas. Mas quem disse que o dinheiro pro material existia? E foi aí que um anjo, destes que escondem as asas, o ajudou pela primeira vez e o garoto começou a trilhar seu caminho, trocando raquetes por canetas. Foi lá que ouviu pela primeira vez a palavra Faculdade. Nunca ninguém dissera a ele que existia vida após o colegial, após os 17. Tantos de seus amigos, mais novos que isso, se foram pelas mãos do jogo do crime. Mas ele permaneceu jogando com o coração e até prestou vestibular. Passou na Fundação Santo André e decidiu cursar Ciências Sociais.

O vestibular foi pago por uma querida professora que acreditava em sua tática e talento,  e as matrículas foram sendo vencidas a cada tempo de dois trabalhos. Por fim, ele voltou ao mesmo Sesc que um dia deu o apito inicial de sua vida para agora se tornar treinador. Diante de mim, tenho não só um guri de cabelos longos, pulseiras hippongas e que carrega um colar barato de pedra ametista. Ao meu lado, tenho um menino que vem carregado de esperança e troféus de vida. Olho pra ele com o carinho de quem faz deste olhar a oração de um dia ver meus curumins com a mesma história.

Ao menino Guilherme que me deu palavras incríveis para narrar seu precioso jogo.

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