Era um Pollock. Não o quadro ou o pintor, mas a história. Era aquele momento do filme em que a Julia Roberts, junto de suas alunas em “O sorriso de Monalisa”, divisou deslumbrada a obra dele indo de encontro e contra todas as crenças do que era Arte, do que era vida. Quando eu pensei em escrever tudo isso, esta foi a primeira imagem que me veio à mente.

E então, desembarcaram aquela enorme caixa e quem a estava esperando era eu, perdida, com aquilo que chamam de nó na garganta e com o desejo de chegar até o carro para desatá-lo. Naquele dia, eu fracassei. Não podemos salvar o mundo sempre. Uma voz suave sussurrava isso no meu ouvido quase que pra me acalmar, mas na verdade ninguém nos ensinou que seríamos insanos na hora certa de parar a massagem cardíaca que é tentar fazer diferente.

E foi quando ela chegou, quase que para segurar minha mão. E eu, me achando a professora que mostraria o mundo, assim como a Julia no filme, percebi que minhas crenças nem sempre são regulares. Quando Débora entrou atrasada na minha sala, eu devia estar pálida, daquele jeito inquieto disfarçado como eu fico quando estou decepcionada. E provavelmente também deveria ter aquele brilho do choro contido. Mas ela sorriu e eu percebi como era bonita.

Quando eu terminei a última informação que deveríamos preencher, ela me agradeceu. Não era por esperá-la até mais tarde, mas por tudo o que estava acontecendo na sua família, tudo de bom e diferente, tudo o que uma segunda chance bem sucedida permite. E quando ela fez isso, decidi aos poucos desamarrar o nó que me sufocava, a abrir aquela enorme caixa com o Pollock dentro e visualizar com ela aqueles respingos pensados de tinta.

Débora tem quase a mesma idade que eu e, apesar de dividirmos naquele momento um quadro imaginário, tivemos uma vida bem diferente. Enquanto ela casava, eu arrumava minhas malas. Quando ela estava escolhendo o nome dos filhos, eu preenchia a ficha de inscrição de um vestibular com meu curso escolhido. Mas esta distância não nos impediu de estarmos juntas neste que seria um dia de agradecimentos.

A história dela poderia ser contada por milhares de mulheres que conhecemos, mas eu acredito que naquele dia ela teve um sentido especial. Após sete anos, Débora decidiu ir embora. E ela tentou de todas as maneiras ficar e fazer de novo, mas não dependia dela. A dependência era destrutiva e ela teve de escolher entre salvar o marido do vício ou salvar o que sobrava de sua família. Foram dias intermináveis para resgatar o Amor, a casa, o marido do mundo que transformava aquela versão de vida em pesadelo. Muitas foram as tentativas, algumas agregadas à violência doméstica, à miséria de quem vende tudo para ser consumido pelo nada. E então, ela olhou ao seu redor de paredes vazias e quando percebeu que não havia nenhuma lembrança boa que pudesse pendurar ali, carregou consigo apenas os dois meninos, sua mais importante bagagem.

Por um tempo, foi acolhida em um abrigo para famílias desmantelas e mulheres marcadas pelo abuso da imperfeição. Ali dividia um beliche e a mesma dor com parceiras de destinos incertos. Ela teria de recomeçar. E foi o que fez. Aprendeu a conviver sob proteção depois de ameaças, aprendeu a estar a 50 m do homem que ainda a amava, aprendeu a fazer a mala diversas vezes para viver, aprendeu a ter forças para dizer aos filhos que tudo terminaria bem. Débora aprendeu a fazer cabelos e unhas para dar às mulheres como ela a beleza que verdadeiramente possuíam…

E Débora aprendeu a agradecer por sua vida nova, pela chance, pelo recomeço e por um dia eu ter acolhido tão bem seus meninos. Foi quando eu olhei para as minhas paredes imaginárias e pude ler todas as histórias bonitas que eu ajudei a contar e reconhecer todas as pessoas incríveis que eu coleciono que transformaram minha vida e me fizeram acreditar que se mudamos o mundo, fazemos isso juntos. E eu só poderia agradecer por isso.

Neste momento que aprendi com ela que a chance de dizermos Obrigada é muito rara e passa tão rápido que devemos confessá-la no Agora. E foi aí que fui eu quem segurou em suas mãos e agradeceu por ter salvo o meu dia com sua história e dividiu com ela, diante do nosso Pollock particular, tudo o que eu sentia naquele domingo frio e de plantão interminável.

Não, não podemos salvar o mundo e vamos falhar diversas vezes, eu sei. Mas podemos encontrar histórias incríveis que partilhadas transformam plantões e vidas.

Para a Débora que um dia decidiu observar comigo um Pollock de vida.

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