Quando eu decidi escrever sobre Mia, ela tinha se apaixonado por Jorge Drexler. Tínhamos alguma coisa em comum. E por este motivo, quando me ofereci para transformar em palavras sua história sem letras, eu o fiz ouvindo Soledad, minha música favorita dele.

E em meio aquele sotaque delicioso, ela já tinha mudado de tamanho. Por vezes, quando o afeto é demais, diminuímos para poder ganhar abraços. Este texto são os meus braços em torno daquela mulher que durante um mês virou menina, inverteu o tempo, abriu portas, se descobriu pelo avesso.

Ainda consigo olhar pra ela, naqueles três minutos infinitos em que apenas chorou. Tinha me confessado que não conseguia escrever uma única palavra sobre aquilo que sentia. Uma escritora de vida que não sabia como contar sua própria façanha de viver. Ela chegou a abrir janelas e cantar saudades, a se aventurar em curvas para perder o medo de viver, a fazer uma lista de inúmeras primeiras coisas que fez pela primeira vez. Mas que estranho, no meio do Afeto, as palavras a abandonaram.

Não sabia fazer de seu garoto uma personagem, justo agora, que decidira deixá-lo entrar. Por exemplo, quando pegava a caneta e tentava falar sobre ele, apenas ouvia uma canção do Eric Clapton, a trilha sonora do dia em que ela decidiu partir. E então, num dia destes em que viver não é preciso, mas navegar sim, ela decidiu se olhar no espelho e confessar que não sabia o que fazer, que racionalmente nada se encaixava, mas quando  tocava levemente o rosto dele, desenhando seus contornos, a vida até fazia sentido… um pouquinho dela sim.

Mia agora escolhera uma palavra para delinear seu moço: Despropósitos. Ele era cheio deles: completo em racionalidade, em silêncios precisos, em tempo perfeito para aparecer e em desesperos incertos para ir embora. Talvez ele tenha sido o despropósito mais bonito de sua vida. E não, não adianta bancarmos os insensatos. Um despropósito muda a vida de alguém.

A Mia que agora usava All Star e tinha joelhos ralados por quedas de esperança, já quase morrera num avião… tem gente que até aguenta a ideia de se encontrar com a Morte, mas não suporta a poesia da vida. Ela percebera isso, talvez tarde demais ou… em tempo de abrir um velho Moleskine e escrever sobre ela mesma, deixando com que ele fizesse parte apenas ilustrando as ternuras e faltas que fazia. Tem vezes em que  as letras pulam o muro e as palavras arrumam as malas para que nosso silêncio escreva o vazio. Quem, além dele, é tão precioso para isso?

Mia, divorciada de vogais e consoantes. Uma escritora sem sua voz, a qual passou a se ouvir, a ver o mundo sem tentar palavreá-lo, sem encaixá-lo naquele roteiro completo de histórias que criava para si mesma. Percebeu que a vida nada mais era do que aquilo que acontecia quando tudo que criava dava errado, queimava, coalhava, desafinava, caía, zerava, batia, gritava, emperrava, fechava.

FECHAVA, Fechava, fech… Perguntei a ela como gostaria que eu terminasse sua história. Minhas palavras ficaram em repouso por um longo tempo:

– Talvez com a palavra ABERTO.

Para Mia, a quem eu emprestei palavras e me emprestou vida.

Anúncios