Tem uma coisa que quase ninguém conta pra gente: Que o frio na barriga é sinal de coragem.

Sentir as cócegas do desespero é saber que não nos acostumamos com o que tá feito, pronto. É muito mais que isso, é a vida cochichando que ainda é tempo de travessura, que fazemos tudo pela primeira vez todos os dias, só esquecemos de reparar. Sim, nenhum homem entra no mesmo rio duas vezes, mas um mesmo homem aprende a andar quantas vezes forem preciso. Aquele que foi um grande passo pra humanidade é também um monumental feito para um homem.

Eu tenho uma história para contar sobre passos. Nem sempre dados com pés, por vezes, concretizados com asas. Voar e pedalar é preciso. Os passos que aqui marcam as minhas letras hoje vem em rodas, cravando as marcas do seu pneu para escrever esta história.

Uma menina subiu na bicicleta, sorriu, pedalou 500m e conquistou o mundo que era do tamanho da sua rua.

Minha menina fez isso hoje e, como foi um feito genial, gostaria de noticiá-lo no mesmo dia. Mas para que você possa entender esta manchete direitinho, aqui vai a cronologia de sua vida:

Nasceu, engatinhou, ficou em pé, andou até… não andar mais. Aos cinco anos parou. Reaprendeu a andar e sobreviveu pela primeira vez em uma infância feliz, em uma adolescência feliz, se tornou adulta e antes da crise dos 30 chegar, um desafio veio aos 29. Depois de uma cirurgia, parou de andar novamente. E então, ela foi apresentada a uma nova forma de caminhar com as mãos, usando muletas.

Eu a conheci nesta fase. Confesso que quando tomávamos chá verde na recepção da nossa escola de inglês e eu a vi pela primeira vez, fiquei encantada com seu sorriso, a forma como contava sua vida. Só vim reparar nas muletas tempos depois, não porque eu seja absolutamente distraída, mas porque aquilo era um mero detalhe. Para mim ela andava com o olhar, com  uma desenvoltura única. Lembro de ter pedido a ela para contar sua história… Três anos se passaram e a sincronicidade do tempo permitiu que este feito fosse feito quando nós duas aprendemos a nos equilibrar em rodas.

Michele teve de dar adeus às muletas, se despedindo também de todas as dores e injúrias que esta locomoção lhe proporcionou. E mais uma vez, aprendeu a andar. Agora, o desafio era em duas rodas. A cadeira, segundo ela, se tornou extensão de seu corpo, mas só depois que Michele deixou a vergonha de lado, as justificativas diante dos outros para aquilo que parecia um retrocesso, um descaminhar…

Mas voltemos ao presente. Esta é a história de uma menina que hoje tem 34 anos e pedalou um triciclo, sonho da infância da Michele que desaprendeu a andar aos 5, aos 29. Parece que a soma de estabilidade dos 5 dedos, o ciclo deste número nos números de anos que a marcam  inventou a roda hoje. Michele pedalou um sonho, segundo ela, pedalou o impossível. Não sei para vocês, mas para mim, este é o seu pequeno milagre. Agora, ela tem a possibilidade de escolher em qual roda dará seus passos, nas da vida ou nas do sonho.

Ensaiei muito para escrever sobre o dia em que eu aprendi a andar de bike, mais precisamente há um mês e meio atrás. Pedalar que para mim era o impossível se tornou completo não pelo meu feito, mas pelo feito dela.

Escrevi este texto ao som da trilha sonora do filme Amélie Poulain, nome dado à minha bicicleta. Escrevi este texto sentindo aquele vento no rosto que só quando pedalamos sabemos o que significa. Escrevi pedalando letras enquanto Michele caminhava nas minhas palavras.

Para Michele, com carinho.

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