Seu nome é Gilles. Ele não é só o haitiano, o negro que fala três línguas, o meu parceiro em traduções quando meu francês se limita. Ele se chama Gilles e é um apanhado de coisas bonitas e pulsantes que vive todo o prazer e dor desta descoberta.

Gilles é alto e tem um sorriso que se solta e te desamarra de qualquer seriedade. Ele lembra o Morgan Freeman, mas com uns 40 anos a menos. E tem aquelas pintinhas no rosto que Morgan também tem. No dia em que o conheci, foi meu debut na recepção de haitianos no meu trabalho. Pra mim, Robert Gilles era um pianista.

Os haitianos não são propriamente refugiados. Ele são imigrantes de ajuda humanitária. A diferença está em um solicitante de refúgio ser  vítima de perseguições políticas, religiosas, de orientação sexual e de grupos. E um haitiano ser vitimizado por uma catástrofe ambiental que ocorreu em 2010 e devastou o país inteiro com fome, pobreza e doenças. E o que os une? O grandioso passo de ter de abandonar sua terra, sua família, quem amam para sobreviver e recomeçar. Esta é uma das façanhas de ser humano.

E este processo de humanização é contagioso. Ele acontece mais ou menos quando a gente menos espera, quando a vida nos coloca frente às pessoas que vão nos fazer enxergar para além de notícias, de cor de pele, de língua esquisita. Quando nos descobrimos humanos, conhecendo nossas limitações e nosso melhor também.

Naquele dia, eu me fiz a minha célebre pergunta: O que será que eu vou encontrar? Porque pessoas não chegam com manual de instruções, elas são feitas de histórias, de desafios com finais tristes e recomeços inusitados. Eu estava junto com a equipe, depois da nossa longa conversa sobre estas pessoas que atravessam rios, fazem caminhadas duradouras, caem nas mãos dos coiotes, tudo para sobreviver. Sobre esta gente que vende o que sobrou de suas casas no Haiti, realocam suas famílias com outras famílias e enviam apenas um familiar para tentar fazer a vida no Brasil. E os que chegam, vivem resignados ao trabalho e a casa, muitas vezes um pequeno cômodo dividido entre 10 pessoas, pois esta resiliência é necessária para matar a fome dos que ainda ficaram em seu país. E quando contei tudo isso, eu vi olhos azuis, negros, caramelos se arregalaram. Era um desafio acolher tanta gente com tanta bagagem.

Minutos antes da chegada de Gilles e seu amigos, eu fiquei imersa naquele silêncio absoluto que me é acolhedor. Respirando pausadamente, me concentrando em força. Lidar com gente tem disso, tem aquela coisa bonita de não saber o quanto isso nos afetará. Ao meu lado, uma educadora se aproximou e me confessou que estava com um frio na barriga excepcional. Neste momento, eu soube que estávamos todos no caminho certo.

Eles chegaram.

Eu disse um breve Ok no rádio comunicador e subimos todos para recepcioná-los. Coração na boca, pulsando, pulsando, pulsando. E começaram a desembarcar daquele ônibus. Em silêncio, em organização. Com suas melhores roupas, com cadernos e canetas em punho, anotando toda palavra nova, fazendo pesquisa do que era aquela instituição. Ainda sérios. Então eu decidi dar as boas-vindas em francês. E vi vários sorrisos se abrirem compondo aqueles rostos emoldurados em uma pele negra lustrosa. Seríamos grande amigos.

Quando os separamos em grupos, Gilles foi apresentado a mim. Ele seria toda palavra que eu não conseguisse pronunciar, todo gesto que a mim era desconhecido, a ponte que me levaria a cada uma daquelas pessoas. Gilles organizava o organizado, pedia respeito e calma. E por fim disse, “Vamos lá, sigam a polaca!”. E então, polaca foi meu mais novo batismo, o mesmo apelido da minha mãe na sua infância. A vida é feita de ciclos.

Por um tempo, fiquei imaginando o que eu diria a todos eles. O que, qualquer coisa que eu dissesse os faria sentir em casa. Seria isso possível? Sentamos em roda, um hábito também praticado no Haiti. Sentar em círculo representa que todos somos iguais, que todos podemos nos ver e ouvir. E naquele momento respirei fundo e apresentei aquela exposição. disse que sabia das lutas diárias deles, da resignação em se fecharem para o mundo para fazer o dinheiro do sustento. Mas eu sabia mais sobre eles do que o simples fato de serem imigrantes haitianos. Sabia que ali, diante de mim, haviam engenheiros, artistas plásticos, professores, estudantes de Direito. E naquele momento, eu pedi que todos se lembrassem de quem eram e se permitissem contemplar arte, música, palavras. Que se reconectassem com o mais puro daquilo que sentiam saudades: o pensamento e a emoção. Ali era permitido. E ali foi consumado.

Não demorou muito para entrarmos em discussões, sensibilidade, em vida. Eles também eram aquilo tudo. Eles eram cada cartão postal que escreveram na obra de Eleonora Fabião para ser enviado para o Haiti. Ali, eu li cartas de amor denunciando saudades, palavras de carinho à mãe que ficou, incentivo e força para esposa e filhos aguentarem o tempo.

Me aproximei de Gilles e perguntei em que ele trabalhava no Brasil. Me disse que era recepcionista em um posto de saúde em Santo André. Como muitos haitianos estavam localizados ali, ajudava os irmãos a traduzirem suas dores. Disse que gostava muito do que fazia. Após um tempo de conversa, perguntei o que ele fazia no Haiti. Pausa com sorriso. Olhos que foram ao chão.

Seis anos de estudo na melhor faculdade de Medicina do mundo, em Cuba. Gilles era médico. Um doutor que para escapar da morte não usou seus instrumentos. Seu remédio foi fazer as malas e vir para o Brasil.

Neste momento, meus pensamentos viajaram para a Polônia e eu não via mais Gilles, eu via Wladek Szpilman, o pianista. Naquele exato momento em que ele está escondido e encontra um piano. Szpilman senta e coloca as mãos no ar e começa a tocar, sem tocar nas teclas. Tempos depois, ele é descoberto por um oficial nazista que, descobrindo sua verdadeira identidade, pede ao pianista para tocar uma música. Naquele momento, tocando de verdade, Wladek não é mais só um judeu, mas um grande intérprete, ele até fecha os olhos, pois naqueles segundos foi a ele permitido lembrar de quem era. E assim, a cada nota emitida, ele se humanizava diante do alemão.

Meu pianista Gilles, dotado de toda sabedoria de cura, a oportunidade dada a ele foi apenas fazer fichas e traduções no hospital. Todos os dias, Gilles coloca as mãos no ar e finge tocar a mais bela sonata, sem ao menos encostar nas teclas, na vida. Para sobreviver, no lugar de procedimentos, palavras. Mas ele ainda acredita em conseguir a revalidação de seu diploma e voltar a clinicar.

O tempo acaba, eles precisam voltar para casa. Vamos com cada um até o ônibus, recebendo todas as bençãos do mundo que a mim são dirigidas e agradecendo a todos “Merci” que me são dados. Gilles é um dos últimos a entrar. Ele escolhe o assento da janela que está em minha direção. Tenta esboçar um sorriso, mas imediatamente leva os dedos aos olhos para secar uma lágrima que começa a cair. Mas é impossível pará-las, elas fluem, como fluiu aquela nossa noite. E quando finalmente consegue olhar pra mim, tudo que diz é um forte “Obrigado, Natie Polaca”.

Naquele momento, choramos. E eu levo minhas mãos ao coração e grito um “Merci  Gilles!”. Somos todos iguais esta noite.

Para Gilles, que me humanizou em palavras, em batismo, em vida, em exemplo. Para o meu pianista da vida, todo meu respeito e gratidão.

Merci Gilles! Merci!

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