– É que eu tenho um problema. Eu nunca vou saber quando o trem estiver parado de verdade.

E esta era a mais pura verdade. Fiz três viagens de trem nos últimos 20 dias e praticamente, nas duas primeiras, dormi durante todo o percurso. Olhar pela janela é um sufoco. Tudo se mistura e embaralha e eu realmente não consigo ver nada. Mas, desta vez, foi diferente. Eu vi girassóis na Bratislava.

Aprendi a gostar de Caio F. a partir de seu livro “Mel e girassóis” e estas se tornaram minhas flores favoritas porque aprendi a amá-las com ele. Viajar tem disso, tem esta coisa de aventura, de se descobrir e de conseguir olhar pela janela. E  quando menos esperamos, conseguimos decidir qual delas abrimos e qual fecharemos, pelo menos por enquanto. Naquele dia, carregando minha mala mega pesada já, eu destranquei alguma coisa dentro da vida.

“Primeira classe. Entra no trem, escolhe o assento que não estiver reservado. Você vai ter bastante espaço e serviço de restaurante. E não vai ser tão mal assim viajar 4 horas.”

Não vai ser tão mal assim? Ah, vá! Você não tem labirintite, meu caro. Mas meu agente tinha razão, não foi. No meio do caminho, no único lugar disponível daquele vagão super confortável, tinha o garoto do chá de Seattle.

– Este lugar está vago? Posso me sentar?

– Fique à vontade. =)

Olhei para aquela que seria  a nossa mesa compartilhada e ela estava quase que toda tomada por computador, um livro em japonês, caderno de anotações. Ok, eu dormiria mesmo, não precisaria de espaço. Quanto muito, meu Kindle seria ligado e eu ficaria lendo meus livros e tal. E respeitaríamos nossos espaços. Mas devagarinho, o computador foi desligado e guardado, o livro ajeitado e eu vi que não dormiria.

– Você não é muito de olhar pela janela, né?

– É que eu tenho um problema, eu nunca vou saber quando o trem estiver parado de verdade. Eu já tô melhorando, mas eu não tenho muito equilíbrio e coisas que passam rápido por mim, como esta paisagem, me deixam tonta. Então, olho pouquíssimas vezes pra fora.

E também eu me recuso a olhar algumas vezes pra dentro. Mas isso eu não contei. Já tinha contado algo muito pessoal sobre mim. Por mais que eu tivesse feito um trato com a minha terapeuta em que eu contaria pra um desconhecido uma história que ainda não está cicatrizada em mim, como que num jogo pra que eu conseguisse verbalizar sobre isso e me humanizar diante disso, não seria hoje e nem desta vez. Porque o garoto do chá de Seattle era calmo demais, talvez até fosse a pessoa ideal para que eu expressasse isso, mas tinham outras 4 pessoas com a gente naquele vagão e aí seria demais.

Eu decidi ficar só naquela conversa de mochileiro de “Onde você vai? O que achou de Viena? Tem dicas legais de Praga?” Mas ele decidiu conversar de verdade comigo. Sobre todos os chás que experimenta para dar consultoria para empresas japonesas na América. Ele me mostrou gráficos e coisas em japonês praticamente indecifráveis. E me contou da vida, das aulas de língua japonesa, das pesquisas e tudo isso. E eu contei das minhas crianças e dos meus imigrantes refugiados. E também da cachaça, da diferença entre produção vertical e artesanal, da forma como ela é desprezada no próprio país. Aí, quando vi, já estava anotando Leblon, Salinas, Germânia, Anísio Santiago, tudo no caderno dele.

Mas um pouco antes da gente decidir cometer gordices no almoço quando descobrimos que happy hour naquele trem começava às 13h, e comermos um bolo de mel e prometermos correr 6k naquele dia para perdemos todas as calorias, eu tive uma visão da vida!

– Meu Deus! Olha prá isso! Girassóis, Girassóis! Olha!!!! Que coisa linda, eu quero me atirar neste campo!

E ele riu. E me contou que mais à frente  teríamos plantações de trigo, caso eu resolvesse me emocionar novamente.

Então, eu gargalhei e contei do Caio F., e de ser minha flor favorita e de conseguir ver alguma coisa bonita sem ficar tonta por aquela janela. E aí, ele decidiu me orientar naquele trem. “Agora estamos parados realmente”, “agora estamos andando”, “Agora olha esta cidade, foi a primeira cidade que eu visitei na Europa na minha vida…”

E o trem chegou à Praga, e nem eu estava com minha bicicleta e nem ele com seu monociclo, nossas paixões recentes. Ele realmente era uma pessoa evoluída, já andava no mundo precisando apenas de uma roda.

Ele foi pra Suécia, eu para Praga.

E eu, decidi me levantar, escancarar uma janela enorme, e que, por vezes, vale a pena perder o equilíbrio, ficar tonta, virar tudo, deixar o mundo girar, girar, girar. Não importa se estamos parados ou em movimento, se você fez planos ajustáveis e do nada as coisas mudam, se você tinha que contar algo tão dolorido pra um desconhecido. O que importa é que talvez eu tenha sim verbalizado o que doía ,mas fiz isso com gesto, olhando pela janela, por aquela e por outras, querendo me atirar num campo de girassóis na Bratislava.

Para o Garoto do chá de Seattle.

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