” O filme é longo, mais que isso. Ele vai durar até a madrugada e todos estaremos dormindo. Ninguém vai assistir com você, ninguém vai estar aqui para te acolher se tiver medo. Ele é triste, ele tem morte, ele tem dor. Você tem certeza de que aguenta?”

Sim. Eu tenho. Eu quero.

Esta conversa meu pai teve comigo no auge dos meus 10 anos. Naquele tempo, A lista de Schindler ganhava um Oscar e aquele filme, do Spielberg uma pessoa que eu tanto gostava, mesmo que em preto e branco – algo não tão intimo de uma menina desta idade -, me atraía. E tudo começou daí, daquela madrugada sozinha em que eu chorava com a menininha vestida de vermelho perdida por entre a guerra, em que eu me apaixonava por aquele Tango de Piazzolla que me presenteou com um Schindler lindo e apaixonante. Começou ali, pela minha torcida para que Stern vivesse e que me ensinou que ” aquele que salva uma vida, salva o mundo inteiro.”

Acordei pela manhã e disse ao meu pai que aquele era o filme da minha vida. Já se passaram 20 anos e minha opinião não mudou.

Depois de descobrir Schindler, meu coração buscava mais histórias. Percebi que amava ouvir relatos de quem sobreviveu pelo impossível, de quem sobreviveu em algum lugar além dos mares. Livros, filmes, conversas. Minha mãe, psicóloga, ficava um pouco preocupada. “Sei que você gosta, que é inteligente, mas é muito sofrimento para sua idade”. A culpa era toda de meus pais que desde cedo me cercavam de informações, muitas não indicadas para minha idade. Meu pai que escolhia notícias de jornal para que eu lesse pra ele a fim de treinar minha leitura. Meu pai que me mostrou a paixão pelo cinema, que não dava importância para classificações indicativas de filmes, mas sim para suas histórias que sabia ele que me encantariam. Minha mãe que jamais se recusou a responder qualquer pergunta minha. Eu era esta garota curiosa e muito madura pra minha idade.

O tempo passou, mas a paixão por aquele período, pelos relatos de sobreviventes, por materiais técnicos e vestígios me acompanhavam a cada ciclo de idade só aumentava. Até que 2015 chegou e com ele a decisão de que eu percorreria uma parte do caminho da II Guerra Mundial e do Holocausto.

No auge dos meus 29 anos, imbuída de saberes, de rotas, mapas. Carregada de energia e surpresas. O que será que eu encontraria ali? O que será que este caminhar de vidas me revelaria? Eu fui, eu queria.

Primeira parada em Paris, na ala dos justos, em frente a uma escola onde 200 crianças judias foram levadas para destinos incertos. Depois, o Memorial de la Shoah com sua estrela triste e uma realidade concreta. Me faltou o ar, me arrepiou o corpo, marejou meus olhos. Ali, por entre aquelas placas de resistência, por entre nomes desconhecidos existia a verdade. Não eram histórias apenas lidas ou assistidas, era a vida na sua pior versão. Voltei para meu hotel chorando, sozinha. Eu havia planejado toda uma viagem baseada em algo que desde criança me era precioso. E o que encontrei ali, no primeiro destino? Faltavam mais 4 cidades e uma infinidade de relatos e lugares e memoriais. O que fazer?

Percebi que havia sim encontrado algo. Encontrei a mim mesma, encontrei minha fraqueza. Eu que sempre me gabei de ser forte, sensata e corajosa era quase que incapaz de olhar aquelas fotos, aqueles resquícios de roupas e vidas e não voltar aos meus 10 anos, aqui no Brasil, e pedir para que meus pais acordassem, pois tinham razão. Eu estava com medo, estava doendo, era demais pra mim. Aquelas pessoas existiram de verdade e foram ceifadas. E não tinha nenhum violino bonito ou qualquer Schindler para acalmar o que eu sentia.

Mudar o roteiro ou tentar? Tentei!

Budapest, Viena, Praga. Memoriais, museus, ruas, paredes ainda com marcas de balas, prisões. A cada visita, eu orava pedindo proteção e força. Parecia que eu estava até me saindo bem. Mas, havia chegado o grande dia de conhecer Terezín stadt, o campo de concentração modelo.

Acordei mais cedo, tomei um banho relaxante, mandei uma mensagem pra minha tia Mari aqui no Brasil. Ela tentou me acalmar e me fazer refletir se este destino seria algo proveitoso ou de extrema tristeza. Eu estava decidida. Pedi para que ela orasse por mim. Eu também dediquei alguns minutos para minha oração de proteção e força. E fui.

Naquela viagem de uma hora pela República Tcheca, percebi o quão  aquele país era lindo no Verão, como que ele deveria ter sido naqueles tempos sangrentos. Em como uma paisagem tão linda pudesse abrigar tanto horror e injustiça. Na van, eu, um casal de judeus americanos e duas russas. As pessoas não costumam fazer este roteiro, nem todo mundo gosta de voltar ao passado ou conhecer aquilo que não foi belo.

Cheguei em Terezín e assim que desci do carro, me faltou o ar. Eu estava com um grupo, mas estava sozinha. E tinha três horas naquela cidade que me engolia com sua História, com seu cárcere. Pensava comigo “O que eu vim fazer aqui, meu Deus?!”. Naqueles 42 graus tchecos, eu tinha frio, eu tinha medo. Primeira parada, o cemitério. Respirei fundo, pedi para Elena, minha Guia, que me deixasse escolher uma pedra especial que eu gostaria de deixar para alguém.

Elena sugeriu que eu fosse até a enorme estrela de Davi no campo. Todos levam suas pedras para lá, pois é uma forma de abraçar e homenagear cada judeu ali presente. Eu me recusei. Pedi um tempo a ela. Gostaria de escolher uma pessoa. Não queria eu agir como se novamente todos fossem números. Eles tinham nomes, eles tinham vidas.

E então, começou minha caminhada solitária, lendo cada identificação, olhando para cada um deles. Até que eu o encontrei. Quase que na beirada, estava Elias Schlomowitz. Ali, com uma flor tímida e tanto sobre ele que jamais saberei. Eu já o tinha escolhido. Abaixei, fechei meus olhos e disse “Elias, esta é para você.”

Meu coração acelerado foi se acalmando aos poucos, o frio me abandonando e fui acometida por uma sensação tal qual um abraço, aquele abraço de que eu tanto buscara nesta viagem, aquele calor de saber que eu não estava sozinha. Chorei de emoção, eu nem o conhecia e ele estava lá pra me consolar. Ele que jamais saberei quem foi a não ser a pessoa que me deu força e confiança para atravessar 3 longas horas de um projeto de vida…

Querido Elias,

Talvez eu nunca descubra quem você foi, quantos anos tinha, o que viveu ali ou para além daqueles muros. Talvez eu nunca conheça um amigo seu para me contar histórias em que você tivesse sorrido ou emoções que tenha vivido. Mas eu queria te agradecer por aquele abraço. Obrigada, do fundo do coração daquela menina que ali voltou a ter 10 anos.

Fique em Paz, seja livre.

Com Amor,

Nathalia Triveloni

Brasil, Março de 2016

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