Como começar? Como Recomeçar?

 

Não dá pra saber, por vezes, não dá nem pra querer. Três anos, três longos anos se passaram e  só agora consigo usar esta palavra “Luto” e entender que ele esteve comigo por este longo e tenebroso inverno.

 

Não lembro de muita coisa do dia mesmo em que tudo aconteceu. Eu só sabia que não queria trajar preto e nem ficar para o enterro. Me convenceram a ir no velório receber os abraços todos. Eram muitos, eram tantos, mas me desculpem. Não me lembro direito quem eram todos. Sei que revi meus amigos de infância, os amigos de infância da mamãe, a dona da loja em que ela comprava esmaltes, a equipe de manicures dela. Lembro porque pensei “Meu Deus, quanta gente a ama” e isso me encheu de orgulho.

 

Fiquei pouco. Fui embora e  aceitei ir pro Achapa comer algum lanche com bacon. Meu ex-namorado me convenceu.  Sei do gosto da Coca que comprei no velório e fui levando até em casa. Sei da emoção de ter encontrado os grafitteiros Os Gêmeos, que eu gosto tanto, na lanchonete do cheesebacon e de ter pensado “Puxa, sou tão fã deles e nem consigo ir lá e dar um oi.” Tudo isso, depois, dizem, de ter conseguido ficar só 40 minutos naquele lugar.

 

Eu nem queria olhar pra minha mãe naquela caixa impessoal. Mas eu tinha um motivo: Na madrugada em que ela partiu, sonhei com ela. Veio se despedir, disse que cuidaria de mim, foi embora. Pra mim esta foi nossa verdadeira despedida. Aliás, a gente já havia se despedido durante aqueles três dias anteriores. Sabíamos que o câncer já tinha vencido, mas como Viver bem é a melhor vingança, mamãe decidiu que não passaria por mais nenhuma intervenção fracassada para prolongar a morte. Ela morreu com dignidade, se despedindo daquela infinidade de gente que fez parte da vida dela. E eu me orgulho por demais desta decisão. Ela não desistiu da vida. Ela quis foi se despedir cheia de amor.

 

A Morte de minha mãe trouxe a mim uma infinidade de perdas, não só a dela – maior e irreparável- mas também outras, por minha escolha ou não. Antes de entrar na minha concha e permanecer por 36 meses fazendo pérolas, decidi por fim ao meu futuro casamento. Percebi que a vida é urgência e que não devemos prolongar aquilo que não nos é mais real por simples formalidades.  Eu apenas tive coragem com a partida de minha mãe. E sou grata a ela por isso.

 

Guardei suas coisas, muitas nossas, e me guardei por este tempo todo que parecia infinito. E fiquei, trancada dentro de mim, lutando contra moinhos-de-vento, vivendo por contrato na terra, arrumando minhas malas e muitas vezes fugindo de mim mesma e de tudo aquilo que exigisse intimidade e abraços. Parei de abraçar as pessoas, parei de olhá-las, conheci dois amores e não os deixei entrar pelo simples fato de imaginar que talvez um dia eles pudessem ir embora. E quando não tinha garantias de qual o meu papel naquelas histórias, eu partia. Desculpem, meninos.

 

Há um ano, decidi fazer terapia. E foi a partir dai que comecei a elaborar isso que chamamos de luto. Sangrei muito a cada camada de pele e de ostra e de vida que iam sendo expostas a cada vez que percebia que já era hora de viver, de me reaver. Estava na hora, era um parto, talvez eu estivesse renascendo. E neste tempo, olhei pra mim no espelho e comecei a me reencontrar, a achar a leveza perdida, os sorrisos tão distantes.

 

Há quem olhe pra mim e diga “Você tá a cara da sua mãe!” e existe gente de uns tempos pra cá que já diz poder me reencontrar de novo dentro de mim. Há pessoas que nos roubam e há pessoas que nos devolvem. Ando sendo devolvida para mim mesma depois que decidi voltar a viver e sentir outros sabores que trago de experiências novas até em casa.

 

O luto é um processo que deve ser respeitado. Não acho que eu tenha perdido 3 anos da minha vida, que eu tenha jogado fora meu casamento ou outros amores. Eu precisava deste tempo e eu o respeito. Mas ele está passando e quero voar junto dele.

 

Como diria Rubem Alves, Ostra feliz não faz pérola. Acho que tenho um colar pronto. Vou vestí-lo e sair por aí descobrindo um pouco mais da vida.

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