Com licença, senhora! O terceiro sinal já vai tocar e a senhora precisa voltar pro palco. O público está esperando pelo resto da história. Eles disseram que não vão embora sem saber o final.

 

Calma, ela só precisa de mais um minuto pra pensar no que vem agora. Folheia aquele amontoado de papéis e de cenas que não aconteceram. Ele foi a personagem mais maluca que apareceu na história dela, ela não escreveu nada disso… E ele fez tudo isso acontecer.

AAAAAAAAAÇÃAAAAAO

Primeiro Ato

Como assim? Em que parte tá escrito que você tira ela para dançar agora? Não, corta! Por quê? Esta música tá no pen drive do carro dela! E o que que tem? Eu sei que ela disse que gostava da música, mas… Que outra música é esta que ele está cantando pra ela, gente? Um blues? E por que ele tá dançando de novo com ela? Corta, Corta! Ela vai procurar esta música no Youtube e não é hora pra isso agora! Ah, não! Quem mandou eles assistirem ao jogo do Palmeiras? Quem? Vai lá buscá-la, agora! E manda ele parar de fazer isso. O Palmeiras perdeu nos pênaltis? Como assim ela se trancou no banheiro porque não aguenta pênaltis? Ela não pode fazer na rua o que faz em casa! É o primeiro encontro deles e isso não está no script!

Ah, não! Corta, Corta! Ela não pode beijar ele! É ao contrário! Cadê o romantismo desta história? Ok, pula. Vamos fazer a Parte II. AAAAAAÇÃO!

Segundo Ato

Mas já? Eles estão discutindo Game of Thrones enquanto se beijam? COOOOOOORTA! Camareira, vá até ela e a faça trocar de meia-calça. Ela rasgou a meia no segundo encontro!

Terceiro Ato

Mas o que ela está fazendo? Como assim não trouxe blusa de frio? Ele vai emprestar? Ok, mas isso é rápido, né? Porque no terceiro ato eles ainda devem ser pessoas racionais. Ah, não! Que merda de chá é este? Ele fez chá pra ela? Manda ela deixar esta caneca na mesa agora e voltar pra aula de francês. Por que diabos ela está comendo chocolate? E daí que ela está de TPM? Ele fez isso, ele trouxe chocolate? Mas e a dieta de “Doce só no final de semana”?

Ah, não! O que está acontecendo?  O que ela está falando? Por que ela diz que é uma pessoa e que pessoas tem sentimentos? Todo mundo sabe disso! Ela vai embora? Sério que ela vai embora? Manda ela voltar agora! No meu espetáculo não tem cena de carro e os dois são  adultos civilizados! Ela tá pensando o quê? Que este aqui é aquele texto do Gregório Duvivier em que ele escreve sobre pessoas que entram no carro e vão embora? Geeeeeeeente, ela foi embora!

Ela voltou. Ele Voltou. Ela Voltou. Ele Voltou. Ela Voltou. Ele Voltou. Ela foi. Ele foi. Ela Voltou? Ele voltou?

E Então, senhora? A senhora tem que voltar pro palco. Inventa alguma coisa, fala alguma coisa. Sei lá, conte uma piada, diz que é de Sagitário, pede desculpas. Faça alguma coisa, mas volte para o palco. É chegada a hora do terceiro sinal.

Até o palco, ela foi acompanhada de um monte de palavras. Mas nenhuma se encaixava ali. Não sabia como terminar aquele espetáculo porque chega um momento da vida em que a gente não sabe interpretar nem gestos, nem sentimentos. Olhou o público e viu que o desejo por saber o final talvez fosse a esperança de tantas histórias que ali também tiveram danças, trilhas sonoras, seriados favoritos, blusa de frio pra aquecer.

Aquela história já não tinha roteiro, tinha vida. E ela não sabia o quê dizer pra ela, pra ele e para o público. Silêncio.

Anúncios