Para a Érica, ela não sabe disso.

Deus existe quando a gente pula o muro. E eu acredito plenamente nisso quando olho para quem pratica parkour com a vida.

Agora, eu estou olhando pra ela. Ela não sabe que eu tô brincando sozinha – mas com a participação especial dela-, daquele momento em que dizem que se você olhar por 4 minutos para alguém consegue sentir fielmente aquela pessoa. Uma vez, mais conhecida como o dia de hoje, ela me disse que isso era muito perigoso porque a gente não consegue esconder nada quando faz isso. Porque a vida passa como que num filme e os sentimentos vão arrastando a gente e gritando “Pula, Pula!”

Lembra daquela vez em que minha mãe estava morrendo e você segurou a minha mão?  E daquela outra em que a gente tinha que dar bronca no  curumim, mas a gente riu? E de quando a gente se vestiu de princesas e foi dar parabéns pra Rosana? E daquela vez em que a gente sentiu a maior injustiça do mundo? E de quando tudo parecia desabar mas a gente estava junto? E de quando toda história bonita que escreveram pra gente virou fumaça? E a gente percebeu que estava tudo uma merda? E que a gente pensou “Vai melhorar” mas viu que isso dependia da gente? E que chegamos à conclusão de que estava na hora de jogar fora aquele sapatinho de cristal idiota?

Pulamos!

E eu tô abrindo aquele sorriso, ainda que no silêncio compartilhado com ela.  Porque a gente tá correndo pelo outro lado, porque a gente cortou os cabelos e os laços, tá rindo muito e tá com este lado do muro todo em branco. E a gente tá desenhando tatuagens, piercings, uma porrada de erros e liberdade. E a gente tá dançando, é, dançando igual ao Renato Russo como se a gente tivesse 18 anos de novo. E a gente tem.

Não, não tá fácil. Escolher o outro lado demanda pernas, saltos incríveis, falar na cara. Demanda rir muito com ela na desgraça, mas se a gente consegue fazer isso juntas, a gente vai saber dar cor pra ele. O outro lado do muro tá festejando a nossa chegada, a presença dela. No lado de antes, eles gritam que somos loucas, mas a gente deixa pra lá. Ligamos um som bem alto do Raul e vamos ficar malucas beleza!

Se eu acredito em Deus? Sim. Mas como eu posso provar que ele existe? Quando alguém decide pular um muro, quando alguém diz que acabou de verdade, quando alguma cinderela joga o sapato e grita “Precisa devolver, não!”, quando a gente dá vida, faz vida. Quando no presente nossa única certeza é de que Pular um muro é incerteza, mas também amor.

Deus existe quando a gente pula o muro. E eu imagino ele gargalhando muito.

 

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