Respire e aperte o play!

-Oi, Nathalia! Tudo bem? Me conta o que está acontecendo?

-Eu estava andando e perdi o ar. É uma dor que começa aqui, bem no esterno e quase que me abraça. Mas o que me preocupa mesmo é ficar sem respirar.

O que eu queria falar realmente para aquele médico de sobrenome Gentil é que eu sabia o que estava acontecendo. Eu estava vivendo. E viver demanda dores bem neste lugar que para ele eu chamei de esterno, mas que para mim é o chacra cardíaco. Lugar em que há um mês minha massagista ayurveda, a Tânia, chamou de onde levamos facadas. Mas eu tô bem com isso, não se preocupe. Quando eu decidi voltar para a vida, sabia que aconteceriam coisas como estas, que um dia a gente tá bem e no outro perde o ar porque esta foi uma semana de decisão difícil. Tá tudo bem, Tá tudo bem. Agora que já dei meu diagnóstico, dr. Gentil, o senhor pode me dar o seu.

– Este aqui é seu raio-x. Tá vendo seu coração? E aqui, estas árvores são seus brônquios. Viu como eles estão brancos? É disso que estamos falando.

Na verdade, doutor, acho que estamos falando de coisas opostas, porque apesar de achar raio-x horrorosos, mostrar meu coração só me faz ver poesia. Eu sou Pitta, doutor, muito intensa. E ao olhar estas árvores eu já penso numa analogia perfeita da vida e dos obstáculos. Mas tudo bem, você vai dizer que é estresse, que é para eu diminuir meu ritmo, focar mais no agora. Agora que eu fiz minha leitura do meu próprio caso, o senhor pode falar.

– Resumindo, este é um início de pneumonia. Você está com dificuldade de respirar porque os brônquios estão obstruídos. Nada sério se você começar a cuidar agora. Vamos pra inalação?

Ao que me pareceu, meu problema era realmente físico. E chegando na sala de inalação, conheci o José. Ele me entregou uma máscara. Prontamente abri o elástico com os dedos e fui alertada de que não era necessário usá-la por completo. O que acontece, José, é que este é o único aviso de emergência que eu presto atenção no avião, porque depois eu durmo. Quando eu tinha 12 anos, quase morri num acidente de avião, então, eu penso que dormir é algo normal visto que posso morrer de qualquer outro jeito, menos no ar. Vamos testar a máscara colocando o elástico e esperando a vida.

Quando os avisos de segurança em um voo começam, a recomendação é clara. Máscaras de oxigênio cairão automaticamente e, por favor, coloque primeiro em você. Fiquei pensando nisso enquanto assistia ao jogo do São Paulo naquela sala de medicação . Em quantas vezes a gente nem tenta colocá-las mesmo quando sabemos que esta é a única saída para continuarmos respirando. Quantas máscaras também esperamos que caíssem lentamente, mas já era tarde. Sobre todas as vezes em que demos, trocamos nossas máscaras. E não estamos falando de qualquer coisa. É sobre o combustível da vida. É sobre nós mesmos, sobre tomarmos o nosso lugar de direito na nossa própria vida.

-Nathalia, você esqueceu sua máscara. Pode levar, seu convênio já pagou por ela, é sua. Melhoras.

E José me entregou minha máscara que eu trouxe para casa. Para usa-la e logo voltar a andar de bicicleta.

 

 

 

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